Quando, por alguma razão, surge a suspeita de alergia ao leite de vaca em bebê, a gente nem sabe por onde começar a decifrar essa confusa charada, não é mesmo? Quando minha filha Catarina completou quatro meses de vida, começamos a investigação de uma possível alergia à proteína do leite de vaca (APLV), e foi nesse processo que aprendi muito sobre o assunto.

Como vocês que acompanham o blog de perto sabem, minha menina era um bebê que chorava demais, tinha cólicas horríveis, praticamente não dormia durante o dia e tinha um certo grau de refluxo- que eu já desisti de entender até que ponto era patológico ou não. Enfim, por meses, fui uma mãe que não teve o menor direito de descanso, angustiada por ver minha filha com tanto desconforto. E foi aí que a suspeita da alergia ao leite de vaca (APLV) apareceu.

alergia a leite de vaca

Imagem:123RF

Diante dessa angústia toda e de tanto chororô, fomos parar no consultório de uma conhecida gastropediatra de São Paulo, para tentar esclarecer se era ou não um caso de alergia ao leite de vaca em bebê. Com base na experiência que tive, devo contar a vocês que o diagnóstico da APLV não é fácil, pois os sintomas da alergia são muito variáveis de criança para criança. Depois de alguns testes laboratoriais (que deram negativo), recebemos a orientação de fazermos o teste terapêutico, que consiste da exclusão do leite da dieta do bebê por algumas semanas.

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Como, na época, Catarina mamava no peito e tomava complemento de leite em pó, precisamos trocar a fórmula que ela tomava por uma especial, preparada especificamente para bebês alérgicos à proteína do leite de vaca. Além disso, como uma parte das proteínas do leite e de seus derivados passa pelo leite materno, tive que excluir totalmente o leite e qualquer alimento que o contivesse (ou que contivesse seus derivados – queijo, manteiga, iogurte etc. – e vocês não podem imaginar como foi difícil fazer isso, porque basicamente quase tudo o que eu comia tinha leite!) durante o teste. Como, depois de feita a exclusão, nada mudou aqui em casa, descartamos a hipótese de que fosse um caso de alergia ao leite de vaca em bebê.

De qualquer forma, ficou o aprendizado! A partir da minha vivência pessoal, reuni uma série de informações sobre a alergia ao leite de vaca que gostaria de compartilhar com vocês. Acho que esse material pode ajudar de verdade muitas mães que procuram um resumo seguro e fácil de entender sobre o assunto. Então, vamos a ele!

Perguntas e respostas fundamentais sobre a APLV

O que é a alergia à proteína do leite de vaca (APLV)?

Como qualquer alergia, é uma resposta do organismo a algo que ele considera estranho; no caso, a uma ou mais proteínas contidas no leite de vaca. Em decorrência dessa reação, surgem diversos sintomas no indivíduo alérgico. Calcula-se que 5% dos bebês de 0 a 3 anos apresentem esse tipo de alergia, que tende a regredir com o avançar da idade (adultos raramente a apresentam). A fase em que os bebês mais apresentam a APLV é durante o primeiro ano de vida, pois seu sistema gastrointestinal ainda é imaturo e pode ser incapaz de lidar com a digestão de alguns alimentos.

Quais são os sintomas da alergia ao leite de vaca?

São muito variáveis de indivíduo para indivíduo, o que dificulta o diagnóstico. As mais comuns são dermatites (vermelhidão com possível coceira ou inchaço associados na pele), problemas no sistema gastrointestinal (cólicas, diarreia, vômitos, constipação – que é o intestino preso – e até mesmo refluxo, lembrando que nem todo refluxo é causado por esse tipo de alergia!), sangue nas fezes (que pode ser detectado por exame laboratorial), problemas respiratórios (tosse, asma, coriza, rinite, chiado no peito), irritabilidade, perda de peso ou ganho de peso aquém do esperado, entre outros. Em casos mais graves, pode levar à edema de glote ou anafilaxia (reação alérgica rápida e grave). É importante salientar que os sintomas podem ser imediatos ou podem levar até dias para acontecer.

Como a alergia ao leite de vaca em bebê é diagnosticada?

Como já disse, o diagnóstico da alergia ao leite de vaca não é fácil. Primeiro, o médico reunirá informações sobre a história do bebê e somará a isso alguns exames. Existe a alergia ao leite de vaca denominada IgE mediada e também a IgE-não mediada (que diferem entre si no tipo de célula envolvida no processo alérgico; ambas podem acontecer no mesmo indivíduo). Na alergia IgE mediada, os exames laboratoriais se mostram alterados; entretanto, na maioria dos bebês prevalece a forma IgE não-mediada, na qual os exames de sangue se apresentam normais.

O próximo passo normalmente é o teste terapêutico, em que se exclui leite e derivados da dieta do indivíduo (no caso de o bebê tomar leite materno, também da dieta da mãe) por cerca de 4 semanas. Nesse período, espera-se uma melhora dos sintomas. Uma vez concluída esta etapa, realiza-se o teste de provocação, que é o retorno do leite à dieta. Se os sintomas piorarem novamente, em geral se fecha o diagnóstico de alergia ao leite de vaca.

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Como posso proteger meu filho da APLV?

A melhor forma é o aleitamento materno, pois a maioria das crianças que desenvolvem a APLV tomou contato com fórmulas infantis precocemente. Mesmo assim, existe a possibilidade de desenvolver esse tipo de alergia com aleitamento exclusivo, já que as proteínas do leite passam (em menor quantidade) pelo leite materno, caso a mãe faça ingestão de leite e derivados. Recomenda-se que a ingestão de leite de vaca (de caixinha ou semelhante) só ocorra após o bebê completar 1 ano de vida, para reduzir a chance de surgimento da APLV. Com essa idade, seu sistema gastro-intestinal já estará melhor preparado para lidar com as proteínas presentes no leite.

Se o pai ou mãe teve alergia ao leite de vaca, o filho necessariamente terá?

Não, não necessariamente. Mas a chance dessa criança apresentar a APLV ou outro tipo de alergia é maior do que a de uma criança sem histórico de alergias na família, uma vez que o componente genético é importante para os processos alérgicos em geral. Assim, fique atento se um ou ambos os pais apresentam história de alergia, seja ela ao leite, outro alimento ou até mesmo de outro tipo (cutânea ou respiratória).

No caso de diagnóstico de alergia ao leite de vaca confirmado, como é o tratamento?

Não tem jeito, é a remoção total do leite e seus derivados da dieta do indivíduo por um determinado tempo. No caso dos bebês em aleitamento materno, a mãe poderá continuar a amamentar, desde que se proponha a não ingerir leite ou qualquer derivado nesse período. Se não for possível, há fórmulas infantis especialmente preparadas (exemplos são o Pregomim Pepti – que tem proteínas hidrolisadas – e o Neocate – que é uma fórmula de aminoácidos), que podem ser indicadas pelo pediatra. A diferença entre uma fórmula de proteínas hidrolisadas e uma de aminoácidos é que a segunda é ainda mais processada do que a primeira; em alguns casos, apenas a fórmula de aminoácidos não causa reações alérgicas no bebê.

Uma grande dúvida dos pais gira em torno do leite de soja. Ele é tido como alternativa alimentar para alguns casos, e só é indicado após os 6 meses de vida.

Depois de um período, é normal que o bebê desenvolva tolerância às proteínas do leite. Cerca de 25% das crianças ficam tolerantes antes do primeiro ano de vida; 50% antes dos 2 anos; e 85% antes dos 3 anos. Quando a alergia é IgE-não mediada, a tolerância tende a ocorrer mais cedo. O retorno do leite à dieta deve ser feito com acompanhamento médico.

Alergia ao leite de vaca é a mesma coisa que intolerância à lactose?

Não, não, não! Enquanto a APLV é mais comum em crianças, a intolerância à lactose é mais frequente em adultos. A intolerância à lactose não tem relação com a proteína do leite, e sim com seu carboidrato, que é a lactose. Quem tem intolerância à lactose apresenta deficiência na produção da enzima lactase, responsável pelo processamento da lactose.

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