Quando eu ainda não era mãe, achava um absurdo criança birrenta. “A culpa é da mãe, que não educa direito; a responsabilidade é do pai, que o deixa fazer o que quer”. Essas eram frases que saíam frequentemente da minha boca, confesso. E só depois de vivenciar a maternidade e todas as suas nuances, eu descobri que as birras fazem parte do desenvolvimento normal de qualquer criança.

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Hoje, quando vejo uma criança pequena chorando e esperneando para ter o que quer, paro para analisar a situação antes de julgá-la. Porque muitas vezes vejo uma mãe firme em sua posição de não dar aquilo que o filho quer (e é justamente por isso que ele está se jogando no chão no meio da loja de brinquedos). Ou que finge não ver o escândalo, para que o pequeno não sinta ter a plateia que está buscando (embora esteja de olho bem aberto e prestando bastante atenção em seu comportamento). Percebi que o discurso de culpabilizar os pais pela atitude do filho era simplista demais – quantas não foram as vezes em que vi uma criança se comportar de forma muito melhor após alguns meses, quando adquiria maturidade para compreender as regras definidas por seu pai e por sua mãe.

Mas, e sempre existe um mas, tenho que admitir que algumas vezes encontramos pela frente pais que não fazem a sua parte na educação dos filhos. Outro dia mesmo, presenciei em um parquinho uma cena que me fez refletir sobre o assunto. Havia várias crianças pequenas brincando, todas elas provavelmente menores do que cinco anos. Bem no meio, um pequeno escorregador que era a grande atração do local. Tudo ia muito bem, até que uma criança subiu no brinquedo, sentou-se e ali ficou. Claro que os outros também queriam escorregar e aguardavam (com certa impaciência, característica da idade) sua vez na fila.

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Como o menininho não descia do escorregador, minha primeira impressão foi a de que ele estava com medo. Olhei ao redor para ver se identificava a mãe (pensei que provavelmente ela se levantaria e iria até ele, para incentivá-lo). Como ninguém se mexeu, procurei atentamente até perceber uma moça que estava próxima a mim, sem demonstrar qualquer preocupação com o que acontecia. “Ok, ela está distraída e não viu o filho”, pensei. Isso fazia total sentido para mim, pois eu mesma sou uma pessoa que às vezes “desliga” do mundo ao redor. Como as crianças estavam ficando exaltadas (e faltava pouco para que começassem a gritar – ou mesmo empurrar o menininho lá de cima), decidi conversar com ela sobre a situação.

Engana-se quem pensou que ela levantou do banco onde estava e foi até o filho. Engana-se também quem achou que ela o chamaria de onde estava, dizendo para ele descer, pois havia várias crianças que também desejavam usar o brinquedo. Quando comentei que seu filho já estava sentado no escorregador por alguns minutos, ela simplesmente respondeu: “ah, ele desce quando estiver com vontade”. Não sei por mais quanto tempo o menino ficou por ali, pois decidi que já era hora de ir embora com minha filha.

Esse é apenas um pequeno exemplo de como a falta de reconhecimento do espaço do outro pode ser um problema dos pais, mais do que dos filhos. É o mesmo caso da criança que chega à sua casa e chora na hora de ir embora, porque quer levar a naninha do seu filho (sim, aquela com a qual ele dorme todas as noites). Ao invés de explicar o quanto aquele objeto é importante para a outra criança, o que você ouve da mãe é: “Ah, ele pode levar, né?”. Ou ainda, é a mesma falta de limite do pai que recomenda ao filho: “ah, ele te bateu para pegar o brinquedo? Então bate nele e pega de volta”!

Quando presencio esse tipo de atitude dos pais, sinto, em primeiro lugar, uma enorme pena da criança. Porque certamente ela irá sofrer ao longo da vida. Depois eu avalio se vale a pena falar, com muito jeito, e tentar mostrar a esse pai que respeito é bom e todo mundo gosta. E, por vezes, decido que o melhor é se afastar, pois, infelizmente, muitos não têm ainda nem a capacidade de ouvir.