O filho único e a “síndrome do não saber dividir”

Por 18 Comentários


Eu já comentei inúmeras vezes aqui no blog como, para mim, é difícil ser mãe de filha única. Ter apenas uma criança nunca esteve em meus planos, e se dependesse apenas de minha vontade, Catarina teria um irmão ou irmã. Mas, considerando minha história pessoal e a certeza de que não terei mais filhos biológicos (a pequena já foi um grande presente, por isso penso que só posso agradecer por sua vinda), me vejo tendo que enfrentar uma situação para a qual não estava preparada. Eu tenho duas irmãs e não consigo imaginar minha vida sem elas: desde que me entendo por gente, divido a atenção de pai, mãe, avós… Os brinquedos, as roupas, o quarto – enfim, tudo! E tive que aprender a ser mãe de uma menininha que não precisa dividir quase nada (e como é difícil saber a justa medida de como agir nesse caso!).

Imagem: 123RF

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Conversando com outras mães de filhos únicos, percebo que aquela máxima de que uma criança sem irmãos não sabe dividir suas coisas é muito relativa. Depende (e muito!) da educação recebida em casa, e é por isso que me preocupo tanto em passar conceitos e valores para a pequena, que está em plena fase de formação. Incentivo que ela doe os brinquedos com os quais não brinca mais (o que, a meu ver, é um primeiro passo – um desafio inicial, uma vez que ela tem que se desprender de algo que já andava meio esquecido. Mais complicado, talvez, seja emprestar um brinquedo que continua em uso), trago outras crianças para brincar com ela, conto com o exercício diário que acontece na escola: o convívio com os amiguinhos. Chego a inventar histórias, sobre a menina que não sabia emprestar suas coisas (mas que aprendeu e passou a ter mais amigos), ou a que só sabia brincar “do seu jeito” (até que descobriu que a brincadeira mais legal é aquela em que todos se divertem). Entretanto, continuo me perguntando o que falta fazer, porque vira e mexe vejo aquela manifestação do “é meu”, “eu que mando”, “eu escolho”, que dói fundo no coração de mãe.

Se a questão fosse apenas dividir objetos, até que estaria mais fácil. Mas talvez o mais complicado seja mostrar que é preciso dividir também a atenção das pessoas. Porque vejo que Catarina mal sabe esperar sua vez de falar (“como assim, vocês não estão olhando para mim? Olha eu aqui, vejam a coisa extraordinária que eu estou fazendo!”), praticamente não brinca sozinha (porque se acostumou a ter sempre alguém que brincasse com ela), tem pouca habilidade para aceitar críticas ao seu modo de fazer (tudo bem, confesso que até hoje tenho problemas com isso, então como esperar algo diferente de uma criança de 4 anos?).

Talvez a expectativa de que a pequena tenha outro tipo de comportamento (mais desprendido, generoso, altruísta) seja um pouco precoce – podem ser necessários mais alguns anos, repetindo diariamente as mesmas frases: que é preciso emprestar, ceder, conciliar aquilo se quer com o que o outro deseja. Por vezes bate um desânimo enorme, porque parece que o que você fala entra por um ouvido e sai pelo outro. Mas, de vez em quando, um simples ato ou uma pequena evolução mostra que tudo vale a pena: o pedido de levar no lanche algo que ela sabe que a amiga gosta, só para dar um pedaço a ela; a vontade espontânea de separar as roupas que não cabem mais, para mandá-las para doação; a concordância de brincar sob as regras do outro – mesmo que não seja a forma como ela gostaria de fazer inicialmente.

É preciso continuar a ensinar, sempre. Porque educar é um trabalho de formiguinha: diário, incansável, e feito com o maior amor do mundo.

E você, sente o mesmo aí na sua casa? Me conta, vou adorar saber que não estou sozinha!




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Comentários (18)

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  1. simone Peixoto smith disse:

    Me filho tem 3 anos e 9 meses e é a mesma coisa. rsrs

  2. Oi, Nívea! Já tinha escrito uma carta, mas o site deu reload e apagou tudo 🙁
    Enfim, vou só para o finalmente: sempre te vejo lamentar tanto não poder engravidar novamente… Mas existem outras opções de maternidade. Adoção é uma (linda) possibilidade. Beijos

  3. Sandra H. V. disse:

    Oi, Nívea, tudo bem?
    Adorei o que você escreveu, para variar!
    Eu fiz tratamento para engravidar, mas não deu certo, e já desde antes tinha a certeza que queria ser mãe, independente de como seria.
    Adotamos nossas duas filhas, a primeira tinha 2 anos e 9 meses quando chegou na nossa família e a caçula veio com 9 meses, depois de 2 anos e 9 meses da vinda da Vitória.
    Sempre quis ter 2, para que elas tivessem uma a outra por toda a vida. Hoje vejo as duas (elas estão com 9 e 4 anos) e fico muito feliz da decisão que eu e o meu marido tomamos.
    Bom, só para compartilhar um pouco da minha experiência. Gosto muito das suas reflexões, fazem-me pensar em muitas coisas.
    Se você quiser conhecer um pouco mais a fundo da história, o meu marido contou um pouco da nossa experiência no blog da nossa família: http://hirayamaveronese.com/2014/10/derrota-ou-vitoria/
    Bjs,
    Sandra

    • Nívea Salgado disse:

      Oi, Sandra, que história linda, obrigada por compartilhá-la com a gente 🙂

      Imagino que adotar seja mesmo uma benção, e que suas meninas sejam muito felizes com a família que as escolheu!

      Grande beijo!

  4. Thais disse:

    Olá!! Perfeito o texto.
    Ser filho único não é certeza de alguém mimado, assim como ter irmãos não é garantia de bom comportamento.
    Conheço muita gente cheia de irmãos que é mais mimado do que filhos únicos.
    Sou mãe de filho único por opção (e por falta de condições mesmo) e tenho absoluta calma e certeza de que ele não será “estragado” só por ser filho único.

    • Everli disse:

      Sou filha única e tenho um filho só. Não acredito que o fato de não saber dividir esteja aliado ao fato de ser filho único. Sou professora, e convivi com vários alunos que não sabiam dividir mesmo tendo irmãos, acredito que isso é muito da personalidade de cada um. Eu mesmo tenho essa dificuldade de dividir, já o meu filho não. Vejo no filho único uma característica bem particular. Ele é muito independente. Nunca esperamos por alguém para fazer algo, pois não vai ter o irmão para ajudar fazer isso ou aquilo. Quando queremos fazer algo, vamos lá fazemos e pronto.

  5. Fabiola disse:

    Sinto a mesma coisa e muitas vezes me questiono em relação a ter outro filho!

  6. natalia disse:

    Acho que temos a msm historia pq sempre penso que a anna vai acabar como filha unica devido a problemas de saude meus. Olhei adocao mas nao topo passar pela maternidade como mae solteira de novo nao. Uma vez ja machuca o suficiente. Qd penso nela como filha unica e sem pai fico em panico. Qq pessoa q pega na mh mao ela tira e fala eh meu… ela so tem 2 anos…
    Peco a Deus mt sabedoria p educa la bem mas tenho mt medo. Me sinto fraca e cansada e a paciencia p educa la vai p ralo…
    Vc abriu meus olhos p um novo item a ser trabalhado… ela tem que aprender a dividir… inclusive a mim…
    Muito dificil viu.

  7. Mariana disse:

    Olá! Tenho 26 anos e sou filha única. Achei curioso o título do seu post e abri pra ler! Na realidade é a terceira vez que eu tento comentar e a página da problema e apaga todo o meu texto. Rs.
    Eu fui uma criança que teve tudo e tive muito de tudo enquanto minhas amigas e minha prima próxima não tinham nem metade. Desde pequena minha mãe me ensinou a dividir, mas ela me ensinou o porque de dividir. Mais que ensinar a doar é importante ensinar o porque de doar. Lembro de recolher brinquedo para as crianças humildes e eu ia com minha avó fazer as doações, curioso que eu tinha uns 6/7 anos e até hoje me recordo de uma cena de um garotinho que me perguntou se eu estava vendendo e quando eu entreguei a ele aquela roupa usada ele saiu correndo, saltitando! Quem sabe se você não levasse sua filha num orfanato para entregar a doação?
    De todos os defeitos que eu tenho, o egoísmo é o único que eu não tenho, nem nunca tive. Muitas vezes eu deixo de comer algo, deixo de ter algo pensando em alguém.
    Não se prenda à ideia que todos os filhos únicos terão os mesmos defeitos. Toda criança tem a sua fase do “é meu”, pense assim! Ensinar a doar é um ato lindíssimo.
    Beijo!!

  8. fernanda disse:

    Oi Nivea,
    não sou mãe, mas o assunto filho único sempre me interessa pq sou uma. E leio pra ver se eu me encaixo em alguma caracteristica, pra tentar melhorar, rs. Sempre tem o depoimento da mãe e não do filho único. Vamos ao olhar do filho único: tenho 30 anos e sou a primeira filha,neta e sobrinha da casa e assim fui até os 9 anos de idade. Aí todo mundo vai pensar, essa menina é um porre. Não sou. Graças ao trabalho de formiguinha da minha mãe! E eu vejo isso nas coisas q eu faço,como não jogar lixo na rua, por exemplo. Moro numa cidade diferente da minha mãe desde os 17(imaginem o parto que foi pra ela deixar eu sair de casa aos 17)e em tudo q faço, ela me vem a cabeça. O fato é q minha mãe me fez independente desde cedo, já que éramos só nós duas e ela precisava trabalhar. Aos 10 anos eu já ia pra escola sozinha de ônibus e aos 12 ia pro banco pagar as contas de casa.
    O q quero te dizer é q, vc pode achar até achar que entra por um ouvido e sai pelo outro. Mas, qdo sua filha tiver minha idade, vc verá que seu trabalho de formiguinha não foi em vão.

    • Nívea Salgado disse:

      Oi, Fernanda,

      Que linda sua mensagem! Muito obrigada por tê-la deixado, é muito bom saber como é a visão de um filho único sobre o assunto.

      Grande beijo,

      Nívea

  9. Fabiana disse:

    Tenho uma menina de 7 anos e também tenho essa dificuldade.Mas como vc disse,é um trabalho de formiguinha!!!

  10. Dea disse:

    Olha… Li uma vez um artigo sobre o erro recorrente que era ensinar as crianças a compartilhar tudo. Era alguém que falou no TED, e era excelente. Tinha argumentos muito bons. Infelizmente não acho mais…

  11. Lidiane Sebajes disse:

    Nossa eu q achava q estava só nessa tarefa árdua, mas é sempre bom sabermos q n é impossível e q n podemos desanimar!! Bjo grande

  12. Karine disse:

    Olá
    Meu filho foi filho unico até os 5 anos
    E nunca tive problema algum pra dividir qualquer coisa que seja, até ja me peguei falando pra ele “não precisa dividir isso”
    so quando a irmãzinha nasceu que ficou com ciúmes e não queria dividir nem a mamãe e nem o papai com ela mas Graças a Deus foi só o primeiro mês agora a bebê ja tem cinco meses e ela tem o maior carinho e cuidado com ela
    Bjs

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