Como boa parte de vocês, leitoras, sabem, eu sou uma profissional da área da saúde. Atualmente convivo diariamente com supervisoras da área médica, inclusive da pediatria. Poucos dias atrás, conversamos bastante sobre a quantidade de crianças diagnosticadas como hiperativas/com déficit de atenção nos grandes centros urbanos do nosso país. O número de pequeninos tomando medicações para essas condições é crescente, e aparentemente estamos herdando a cultura norte-americana de pensar o tratamento dessas condições, na maioria das vezes, com remédios.

Justamente depois dessa discussão, eu me deparei com um texto na internet que fazia uma comparação entre o número de crianças com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) nos Estados Unidos e na França, tratadas com medicamentos (sendo a Ritalina uma das mais conhecidas). Enquanto 9% das crianças norte-americanas têm o diagnóstico de TDAH e recebem medicamento, apenas 0,5% das francesas foram diagnosticadas de tratadas da mesma forma. O que nos leva a pensar: por que essa diferença tão grande?

Imagem: Flickr - Creative Commons

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A resposta está em como o TDAH é encarado nesses dois países. Enquanto os americanos entendem que o transtorno de hiperatividade seria uma doença, os franceses o encaram como uma condição médica com causas psico-sociais. Em outras palavras: eles procuram entender as causas e situações que levaram a criança a apresentar o problema e agir sobre elas, e não sobre o cérebro da criança, com o uso de drogas.

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Os medicamentos usados para o tratamento de TDAH são estimulantes do sistema nervoso central e podem causar dependência. Por isso, com a remoção da droga, crianças e adultos podem apresentar síndrome de abstinência. Há ainda outros tantos efeitos colaterais que podem decorrer do uso de Ritalina, como bem colocado pela a pediatra Maria Aparecida Affonso Moysés, professora titular do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, em uma entrevista para o portal da mesma Universidade (que você pode ler aqui). Recomendo a leitura.

Trabalhando na área da saúde eu percebi que cada caso é um caso, e que medicamentos podem ser de grande utilidade para o tratamento de alguns indivíduos. Seria imprudência minha afirmar o contrário. Só me pergunto se o número de casos tratados com drogas não é muito maior do que o realmente necessário e se muitas das crianças que recebem o diagnóstico não são apenas mais questionadoras do que a média ou se não lhe faltam atenção, acompanhamento dos pais e um ambiente familiar harmônico. Fiquemos atentos!