O que é ser mãe de menino (ou ser mãe transcende peculiaridades de gênero)

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Há certos assuntos relacionados à maternidade que não fazem parte da minha vida como mãe, mas que eu sonhava em abordar aqui no blog. E um deles, obviamente, é a questão de ser mãe de menino – afinal, como eu poderia falar sobre isso, tendo apenas uma filha? Foi então que eu convidei a Fabiana, mãe do Dudu (que é amigo da Catarina – e que gostoso é ganhar amigas que chegam através desse relacionamento entre os pequenos!) e da Elis, para contar um pouquinho da sua experiência. O resultado é esse texto lindo e emocionante, que eu compartilho agora com vocês. Espero que gostem tanto quanto eu gostei!

Por Fabiana de Toledo

O inverno de 2010 se despedia quando duas listras em um teste cheio de xixi anunciaram que meu corpo dava início à fabricação de um pequeno ser – o meu primeiro filho. As semanas seguintes seriam de euforia em níveis recordes. Um estado que definitivamente não combinava com espera, calma e paciência. Aguardar três meses para descobrir o sexo do bebê? Jamé! E, assim, com a desculpa de que seria útil matar a charada antes de uma viagem que renderia umas comprinhas, lá fui eu para o laboratório fazer o exame das grávidas ansiosas. Em poucos dias, veio a estrondosa notícia: um cromossomo Y habitava meu ventre!

Eu e ele, o meu Eduardo, em um registro feito há um ano, quando estava grávida de 9 meses, à espera de um bebê cujo sexo só descobri no parto: a nossa Elis. E não é que a maternidade tem o dom de nos modificar mesmo? (Imagem: Zuleika Iamashita)

Eu e ele, o meu Eduardo, em um registro feito há um ano, quando estava grávida de 9 meses, à espera de um bebê cujo sexo só descobri no parto: a nossa Elis. E não é que a maternidade tem o dom de nos modificar mesmo? (Imagem: Zuleika Iamashita)

Ao saber que carregava dentro de mim um minúsculo rapaz, de início, me desapontei um pouco, não vou negar. Afinal, vim de um lar que celebrava em êxtase as gestações de meninas e comemorava com moderação a de rapazes. [Pausa rápida para um breve relato: você já se deparou com uma mulher que, sem papas na língua, declarou que se pelava de medo de ter um menino? Pois era a minha mãe! Atormentada, quando jovem, pelos irmãos machistas que eram aplaudidos pelo pai, ela ficou traumatizada]. O pesar, porém, foi embora em um pulo! Bastou florescer o vínculo com a barriga, que o encantamento com a iminente e tão desejada maternidade enterrou qualquer sombra de espírito borocoxô. Ao contrário: o astral da minha gestação foi de pura festa.

Hoje, mais de 1500 dias depois de ter me tornado mãe do meu moleque, cá estou eu brigando com as palavras pra tentar escolher as que melhor consigam descrever o que é ser mãe de um menino. Traiçoeiras, elas insistem em martelar pequenices do dia-a-dia, como: ter um garoto é tropeçar em carrinhos e pistas desengonçadas difíceis de guardar; é conviver com o tal do Aranha e do Morcego, esses homens que deixam suas roupas espalhadas por todo canto; é quebrar a cabeça para aprender a transformar o carro em robô e vice-versa; é acostumar-se a ouvir gracinhas envolvendo cocô e afins (alô, mães de homenzinhos de 4 anos, alguém aí se identifica?); é temer a infeliz da fimose; é ver brotar o fascínio por características como força, coragem e rapidez; é se desdobrar para entender por que o menino não desiste da ideia de usar chuteira com aquela roupa tão legal que você separou para o aniversário; é desistir de querer lavar a bola de futebol – afinal,  por que cargas d’água desperdiçar energia limpando algo que irá fatalmente rolar no chão sujo?!

Por sorte, estou ligeira e não me deixo enganar, pensando que essas trivialidades sintetizam uma missão tão larga e intensa. Ora, criar um ser do sexo masculino é sim habituar-se a tudo isso; mas acreditar que as questões mais relevantes relacionadas à criação de meninos são essas é ignorar tantas outras infinitamente mais significativas. Pra mim, os dilemas e desafios de se criar um garoto têm muito mais a ver com questões como: mostrar que é muito legal ser um cara afetuoso; ensinar que lutas e afins só são divertidas na medida em que fazem voar a imaginação e não ferem ninguém; permitir que o pequeno explore o mundo e dê vazão aos seus interesses de um jeito espontâneo, sem “podes e não podes”; propiciar um ambiente equilibrado que ensine que discriminação, seja ela qual for, não está com nada; estimular a participação de todos da casa nas tarefas domésticas, afinal, compartilhamos esse espaço; acolher todos os sentimentos do filhote sem legitimar armadilhas tolas e caducas do tipo “homem não chora”, etc, etc, etc. São tantas as reflexões pertinentes que me parece até ingênuo se prender a conversas do tipo “é mais fácil trocar fralda de menino” ou “moleques dão mais trabalho no desfralde”. Puxa, pra mim, educar um menino é, antes de tudo, travar uma batalha constante com o fantasma do machismo, que conduz nossos pensamentos até mesmo quando a gente se acha esperto e livre de preconceitos. É um processo que exige a reeducação de toda a família e, por aqui, a gente está só começando.

A verdade é que, em quatro anos, já renovei as lentes para enxergar o mundo uma porção de vezes e essa troca não tem fim. Aliás, acho que um dos grandes baratos de ser mãe é justamente esse: ter a oportunidade de aprender enquanto ensino. E, o melhor: essa chance é dada a qualquer progenitora, qualquer que seja o sexo do seu filho. Como mãe, tenho experimentado viver mais na terceira pessoa do que na primeira, curto emoções singulares, que me arrancam sorrisos e risos sem fim, mas também me levam às lágrimas e piração com bastante frequência. Arrisco dizer que é a aventura mais complexa e inebriante em que vou me meter em toda minha vida. E antes que vocês se cansem dessa minha inesgotável pieguice, deixa eu me despedir com essa: – Filho, sabe o que a sua avó disse quando a questionei sobre o descabido pavor que ela carregava de ser mãe de menino? Que, se ela soubesse que teria um garoto como você, certamente teria mudado de ideia. <3




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Comentários (5)

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  1. Jessica disse:

    Sou mae do Junior que irá completar um ano amanhã, e essa foi a mais bela definição de ser mãe de menino, chorei mto…

  2. Julia disse:

    Que texto lindo! Sou mãe de menina e as questões diferem um pouco, mas acho que o desafio de ensinar o/a filho/a a não ser preconceituoso e poder expressar suas emoções é comum a todas as mães!

  3. Ingrid disse:

    Sou mãe ( orgulhosa e coruja ) do Pedro de 7 anos . Sempre digo a ele o quanto ele mudou minha vida para melhor . Amo ser mãe de menino , na verdade , amo ser mãe ! rsrs
    O texto é lindo , e só para constar , acho q a fase dos carrinhos espalhados e a bola suja vão durar mais um tempinho rsrsrs

  4. naiane disse:

    Olá! Sou mãe de dois meninos e uma menina. Já vivi as fases de carrinho, heróis e também princesas e bonecas. Hoje consigo conciliar tudo e ensinar para os meus filhos as diferenças e valores. Parabéns pelo ótimo texto!

  5. Suelen disse:

    Muito bom esse texto, a forma sincera, descontraida e seria como é lidado com o tema.
    Realmente criar e educar nossos filhos independente do sexo. Acredito que quando nos tornamos maes nao vemos meninos ou. Meninas, e sim vemos com a lente do ser humano. Conseguindo a sdir extrair e fazer com que nossos babys se tornem versoes melhores de nós com toda sua essencia e singularidade.

    E muito ermocionante a frase final dedicada ao filhote e a vovó.

    Parabens!

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