Há alguns anos, a convite da minha amiga Nívea, eu compartilhei aqui no Mil Dicas de Mãe as delicadas e contraditórias emoções que me acompanharam na minha segunda gestação. (Se você ainda não leu, antes de seguir em frente com essa leitura, peço que, primeiro, confira esse texto aqui.) Pois hoje eu volto para compartilhar com vocês como vejo aquela fase de sentimentos à flor da pele, 5 anos depois de ter me tornado mãe de dois.

Há cinco anos, com um recém-nascido em casa. Imagem: Arquivo Pessoal

Começo contando que, na minha casa, a transição para a nova dinâmica familiar com um bebezinho e uma criança de 3 anos foi mais rápida do que eu imaginava. Mas isso não quer dizer que foi fácil. Arrisco afirmar que nunca é. O que quero dizer é que, ao contrário do que vivi com a chegada do meu primeiro filho – quando sofri demais para me despedir da minha vida prévia –, dessa vez, eu não fiquei resistindo (em vão) e, rapidamente, aceitei a nova rotina. E, assim, com tanta mamada para dar, fralda para trocar e sono para embalar, em pouco tempo, eu já tinha incorporado plenamente aquela conhecida condição de mãe de recém-nascido.

Nos três primeiros meses, adotei o esquema “o pai cuida do mais velho e a mãe cuida do RN” sem grandes dramas ou questionamentos. Simplesmente aceitei que, na minha casa, era o melhor a se fazer, já que eu estava entregue à amamentação e sou adepta da teoria da exterogestação e da ideia de que bebê muito pequenininho precisa de um ritmo mais suave, recolhimento e colo de mãe. Então, fiquei mais tempo na toca com a cria, enquanto os garotos da casa mantiveram os nossos velhos hábitos de passear, ir ao parquinho na praça, curtir os eventos culturais da cidade etc. Sim, muitas vezes eu derramava lágrimas vendo as fotos que recebia desses passeios, com o peito apertado de saudade do meu menino. E sim, vez ou outra, eu topava sair com a trupe reunida para programas mais tranquilos e ao ar livre, pois não sou radical e valorizo demais a minha sanidade.

Nesse período delicado, em que a privação de sono se junta com a algazarra dos hormônios e as sombras maternas insistem em acinzentar o nosso céu (que antes da chegada do segundo filho estava tão azulzinho), duas coisas foram essenciais para o meu equilíbrio. A primeira delas foi a cama compartilhada que eu fazia em um período da madrugada, normalmente entre 2h e 7h, para amamentar sem levantar e poder dormir mais. E a segunda foi ter um trato bem estabelecido com o marido para compartilharmos tarefas e eu conseguir ter alguns momentos do dia só meus e do meu primogênito.

Claro que, mesmo contando com isso, houve dias ruins, momentos de caos com dois filhos para atender ao mesmo tempo, inúmeros episódios de choro de um dos membros da família (eu inclusa) e uma vontade estranha e contraditória de acelerar o tempo para ver tudo acomodado – principalmente as emoções – o quanto antes.

Mas, sem dúvida, aquele meu processo de deixar fluir as dores da despedida do filho único na gestação (que descrevi no outro texto) me ajudaram demais a atravessar os intensos meses iniciais como mãe de dois. Eu não carregava falsas expectativas nem uma visão romantizada de que aumentar a família é lindo, suave e natural. Ter o segundo filho havia sido sim uma escolha, mas eu já sabia que a sua chegada causaria um bom estardalhaço na minha vida, por dentro e por fora. Eu já estava desperta e consciente quanto à tempestade emocional e prática que viria – afinal o trabalho aumenta demais de um dia para o outro. (Por isso, não hesitem, se puderem, peçam ajuda!)

Nós, naquela mesma poltrona, agora sem direito a herói nem bebê no peito. Um menino de 8 anos, uma menina de 5 anos e uma mãe que não se cansa de agradecer por tê-los na sua vida. Foto: Arquivo Pessoal.

Por sorte, mesmo vulnerável, consegui manter o foco para não me distrair com perigosas armadilhas do tipo “preciso manter minha casa impecável, mesmo tendo um RN e uma criancinha”, “acabei de ser mãe, mas preciso voltar logo ao meu corpo de antes”, “vou conseguir trabalhar de casa quando as crianças estiverem dormindo”, “tenho que ficar bonita e me cuidar para o meu marido”, e tantas outras que basta a gente vacilar e cai facinho nelas. E, assim, o primeiro ano passou sem tantos solavancos e a minha bebezinha se ocupou de fazer aquilo que nossos filhotes têm o dom de fazer: alargar nossos corações e nos despertar o maior amor do mundo.

Daí, uma vez flechada, vi evaporar aquela visão saudosa da minha vida como mãe de filho único. Aquela realidade já não era mais minha. Já havia se tornado impossível imaginar a família sem a nossa caçula. A profecia do “vai passar”, no devido tempo, se concretizou e o nosso céu, aos poucos, se abriu novamente, ainda que existam, é claro, aqui e ali, umas inesperadas pancadas de chuva.