Essa semana recebi um e-mail de uma das leitoras do Mil Dicas de Mãe que estava preocupada com uma possível incompatibilidade sanguínea entre ela e o feto. Em seu relato, ela me disse que as informações que encontrava eram superficiais ou complicadas demais para se entender, e por isso pediu minha ajuda para “traduzir” a questão em uma linguagem mais acessível. Como eu já tinha pensado em fazer um post sobre o assunto, achei que seria uma boa oportunidade para deixar esse conteúdo disponível a todas as mães que visitam o blog.

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Quando se fala em incompatibilidade sanguínea entre a mãe e o feto, a grande preocupação que se tem é em relação ao fator Rh e à doença chamada eritroblastose fetal. Vamos por partes, para entender melhor. Os glóbulos vermelhos do sangue de uma pessoa (também chamados de hemácias ou eritrócitos, caso você veja esses termos por aí) podem ser classificados de acordo com a presença ou ausência de um antígeno chamado de Rh. As pessoas que apresentam certas proteínas chamadas de agente Rh na superfície dessas hemácias são denominadas Rh+ (positivo), enquanto as que não apresentam, são as Rh- (negativo).

O maior risco de incompatibilidade sanguínea na gestação ocorre quando a mãe é Rh- e o feto é Rh+. Isso só pode acontecer se o pai da criança for Rh+ (se ele for Rh-, o filho será também Rh-, descartando a hipótese de mãe e feto serem incompatíveis). Mesmo se o pai for Rh+, há a chance do filho ser negativo, e também não ocorreria o problema. Considerando que o filho seja Rh+ e a mãe Rh-, ela pode desenvolver anticorpos em seu sangue que enxergarão o próprio filho Rh+ como um corpo estranho em seu corpo, e começarão a combatê-lo. Esses anticorpos não existem naturalmente no sangue da mãe – só passam a ser produzidos quando seu sangue tem contato com o sangue do feto Rh+.

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O primeiro filho, mesmo que seja Rh+, em geral está protegido contra esse combate das células da mãe, pois a sensibilização de suas células pelas do bebê só ocorrerá no momento do parto (e não durante a gravidez). Para evitar que um segundo bebê Rh+ tenha suas hemácias destruídas pelos anticorpos da mãe, que foram gerados a partir desse instante e que continuam circulando em seu sangue, nas primeiras 72h de pós-parto a mãe deve tomar uma injeção de 300 mg de gamaglobulina anti-Rh (também chamada de anti-D). Essa gamaglobulina destruirá as células do bebê antes que a mãe seja sensibilizada e possa produzir anticorpos anti-Rh.

Existem outras situações onde a mãe Rh- deve tomar a injeção de gamaglobulina, como em caso de gravidez ectópica (fora do útero, em geral nas trompas), de aborto espontâneo ou induzido e de exames invasivos (como a amniocentese ou biópsia de vilo corial – não se preocupe com esses nomes, você os conhecerá somente no caso de precisar realizar esses exames). Isso porque nesses casos ela também pode ter contato com o sangue de um feto Rh+ e passar a produzir os anticorpos anti-Rh, que combateriam as células sanguíneas do próximo feto Rh+ (que é a doença chamada de eritroblastose fetal ou doença hemolítica do recém-nascido). Uma vez formados os anticorpos, eles passam a estar presentes permanentemente no corpo da mãe. E a injeção de gamaglobulina é preventiva, não tendo efeito sobre os anticorpos já produzidos.

Considerando que você é uma mãe Rh- com um parceiro Rh+ (ou que você já tenha recebido uma transfusão sanguínea – que se feita impropriamente pode ter causado a sensibilização), você deve estar atenta a essa questão. Durante o pré-natal seu médico pedirá um exame chamado teste de Coombs indireto, em que será avaliada a presença de anticorpos anti-Rh em seu sangue. Esse teste será repetido mensalmente, para que a condição de segurança de seu bebê seja monitorada durante toda a gestação. Durante a 28a semana de gestação é recomendado que a mãe receba uma dose de gamaglobulina, como fator adicional de proteção contra a sensibilização. (Para quem quiser se aprofundar um pouco mais e conhecer o protocolo de gamaglobulina da Prefeitura Municipal de são Paulo, é só clicar aqui).

Se o teste de Coombs indireto for positivo, significa que a mãe já apresenta os anticorpos no sangue e sua gestação é classificada como de alto risco. Quando o bebê nasce com eritroblastose fetal, ele deve receber de pronto transfusões de sangue Rh- para eliminar os anticorpos da mãe que passaram pela placenta e que podem destruir suas células sanguíneas (o que levaria inicialmente a uma anemia ou icterícia leve podendo provocar em última instância a morte do bebê). Por isso não há dúvidas de que a melhor medida seja a prevenção da doença com acompanhamento pré-natal bem conduzido.

Obs: Eu sei que o assunto é meio complicado. São vários termos técnicos que dificultam o entendimento, mas o mais importante é se lembrar da eritroblastose fetal se for uma mãe Rh-. Qualquer dúvida, pergunte ao seu ginecologista ou obstetra, para que ele a oriente!