Durante esses quase dois anos de blog (como o tempo passou rápido!), eu comentei aqui e ali que tive dificuldade para engravidar de Catarina. Algumas leitoras até me escreveram, contando que liam o blog e que estavam na fase da tentativa de uma gravidez, e me perguntaram como tinha sido o meu processo. Embora quem me conhece pessoalmente saiba que eu não tenho qualquer problema em falar sobre isso, relutei um pouco em escrever um post específico sobre o assunto. Até que hoje, não sei exatamente por qual motivo, achei que seria o momento. Eis a minha história: eu tive menopausa precoce. Espero que vocês leiam com carinho, porque é uma mensagem de esperança.

Para quem não sabe (e eu mesma nunca tinha ouvido falar nisso até acontecer comigo), a menopausa precoce ou falência ovariana precoce acontece em menos de 5% das mulheres antes dos 40 anos. Sabe a menopausa, que deveria acontecer na casa dos 40? Pois é, nesse caso ela acontece antes, seja porque a mulher tem uma predisposição genética, sofreu quimioterapia ou radioterapia, perdeu um ovário ou mesmo tem alguma doença auto-imune associada. Aí vocês me perguntam: qual foi a causa do seu caso? E a resposta é: não tenho a mínima ideia. Nem minha mãe, nem minha avó apresentaram o problema, e eu não tive qualquer condição associada detectada. Simples assim, meu ovários pararam de funcionar como deveriam. E isso quer dizer que não existem ali tantos óvulos quanto deveriam existir, considerando minha idade (na época do diagnóstico, eu tinha exatos 30 anos).

Em setembro de 2008 decidimos aqui em casa parar com o anticoncepcional. Eu sinceramente achava que engravidaria rapidamente (ouvi por muito tempo que as mulheres da minha família engravidavam facilmente), por isso a expectativa era grande desde o início. A cada mês, eu “sentia” todos os sintomas de gravidez – ficava enjoada, tinha sono… Tudo psicológico (ou mesmo resultado da mudança hormonal que já estava ocorrendo e eu nem sabia!). Como eu havia feito alguns exames meses antes, entre eles um ultrassom que mostrava que havia ocorrido a ovulação, eu estava relativamente tranquila, e achava que era apenas uma questão de tempo até receber um resultado de teste positivo. Gastei inúmeros testes de farmácia, e às vezes minha menstruação atrasava (apesar de na condição clássica de menopausa precoce a menstruação parar, eu ainda menstruava todos os meses) – mas só até que eu visse a prova de que não seria daquela vez, e então o fluxo começava.

Segui assim até completar pouco mais de 1 ano de tentativa (pois é comum casais demorarem todo esse tempo para engravidar – por isso em geral os médicos não iniciam uma investigação mais profunda). Até que retornei ao meu ginecologista, e saí de lá carregada com vários pedidos de exame. Lembro-me de ter olhado para tudo aqui e pensado: “puxa, por onde eu começo?”. E decidi começar pela parte mais fácil, os exames de sangue.

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Na primeira semana de 2010 eu colhi os exames, e fiquei aguardando ansiosamente pelos resultados. Como a curiosidade era grande, assim que o laboratório os disponibilizou na internet, sentei para analisá-los. E juro para vocês: eu não estava preparada para o que vi. Faz parte de qualquer investigação de fertilidade os exames hormonais: estrógeno, progesterona, FSH e LH. E um número, mais do que todos, me chamou a atenção: FSH = 31 (dentro da faixa de pré-menopausa; para minha idade, o resultado deveria ser 3 ou 4!). Os demais hormônios dosados também estavam alterados. Então eu pensei: “puxa, olha aqui, temos um problema!”. Mas para mim isso significava que eu teria que fazer um tratamento, tomar alguns medicamentos e que, finalmente, conseguiria engravidar. Infelizmente, não foi o que eu ouvi dos médicos.

Antes disso, no entanto, coloquei os resultados do exame no Google, e em tudo o que li havia o termo Falência Ovariana Precoce. Comecei a ficar preocupada. Depois de horas, já não era preocupação, era desespero mesmo. Tudo indicava que meus ovários não produziam mais óvulos capazes de serem fertilizados, e por isso todos os hormônios (que dependem da existência do ciclo do óvulo) estavam alterados. Demorei mais de um mês para marcar o ginecologista, simplesmente porque não queria encarar de frente o assunto. Eu me convencia de que, se esperasse um pouco, repetiria os exames e eles estariam normais (porque, eventualmente, mas não comumente, a falência ovariana pode ser temporária, ao invés de definitiva). Até que em fevereiro, lá fui eu ao médico, reticente de que ele dissesse que o caso era complicado. E foi exatamente o que ouvi…

Com todas as letras, meu médico disse: “querida, eu sei que é difícil ouvir isso, mas você tem menos de 5% de chance de ter um filho biológico.” E nessa hora meu mundo caiu. Eu só tinha 30 anos. Eu estava tentando engravidar desde os 29. Não, eu não tinha 40 e estavam me dizendo que eu não estava mais na idade de ter filhos. Eu era jovem, e sentia que tinham me tomado o direito de ser mãe.

Por outro lado, o fato de ser nova era meu único consolo. Eu não havia deixado passar, por vontade própria, a idade em que biologicamente é natural engravidar. Eu não tinha corrido atrás de uma profissão e me dado conta anos mais tarde que tinha deixado a oportunidade passar. Não tinha sido uma decisão minha, portanto não caiu sobre meus ombros a responsabilidade da escolha. E isso foi muito, muito bom. Haviam decidido por mim, e só me cabia aceitar o que tinha acontecido.

Veja também: Congelamento de óvulos – o que você precisa saber se ainda quer ser mãe

A aceitação foi dificílima. Eu chorei dias e dias. Eu me perguntei por que aquilo tinha acontecido justamente comigo. Eu tive uma conversa muito séria com o pessoal lá de cima, e pedi para que eles mudassem de ideia, porque eu seria uma boa mãe. E se dentro de mim restava alguma dúvida de que eu queria engravidar (e durante todo o ano de tentativas, sinceramente eu tinha meus conflitos – não seria melhor fazer primeiro o pós-doutorado? Quem sabe viajar para estudar alguns meses no exterior?), ela foi exterminada pela vontade de ser mãe (e não poder).

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Foi então que comecei a sentir os sintomas clássicos: um calor noturno absurdo (sim, eu já senti as ondas de calor da menopausa e elas existem mesmo! Pode estar nevando que você acha que o ar condicionado deveria estar ligado!), insônia e o ciclo menstrual se tornou irregular. Eu repeti os exames no mês seguinte, e no outro também. Como o processo é dinâmico, nem sempre a perda da capacidade de ovular ocorre de maneira brusca. A cada mês meus exames melhoravam ligeiramente, e eu me animava. Mas só até ouvir a opinião dos médicos, que diziam que o diagnóstico não havia mudado.

Então meu ginecologista sugeriu que eu procurasse um especialista em infertilidade. Era um médico renomado, por isso o horário foi marcado para dali alguns dias. Para não perder a consulta, já levaria uma série de exames, assim ele poderia avaliar melhor meu caso (até um tal de Hormônio Anti-Mulleriano, feito em pouquíssimos lugares aqui no Brasil). E na véspera da consulta (na véspera, exatamente!), eu descobri que… estava grávida!

Parece difícil acreditar, mas foi meu marido quem desconfiou. Ao pegar o resultado dos exames, que eu deveria levar no dia seguinte ao especialista, ele notou que estavam muito diferentes do que os anteriores. Ele também foi ao Google, e dessa vez nosso maravilhoso oráculo disse que eu estava… grávida! E foi assim que compramos um exame de farmácia, e confirmamos a vinda da nossa pequena Catarina!

O resto da história vocês já sabem. Hoje eu sou mãe de uma linda menina de quase três anos. Meu presente, meu pequeno milagre. Eu não duvido mais que eles acontecem, todos os dias, em todos os lugares. E você?

Veja também: Rejuvenescimento ovariano: tratamento em fase experimental é esperança para mulheres com menopausa precoce

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