Esse mês foi publicado em uma das melhores revistas científicas de pediatria do mundo, a Pediatrics, um artigo que estabeleceu a relação entre limpar a chupeta do filho com a própria saliva e o risco do pequeno desenvolver problemas alérgicos. Bom, não preciso nem dizer que assim que vi a notícia, fui correndo conferir o estudo, para contar tudo para vocês (e até me dar o direito de emitir minha opinião).

A história é a seguinte: pesquisadores suecos avaliaram cerca de 180 bebês e fizeram seu seguimento até que completassem 36 meses. Eles eram filhos de mães que frequentavam um centro médico de alergia, e muitos deles tinham mãe, pai ou ambos os pais alérgicos. Com 1 ano e meio de vida, 25% desses bebês tinham desenvolvido dermatite, 5% apresentavam asma e 15% demonstravam alergia alimentar.

Então os pesquisadores procuraram estabelecer a relação entre o surgimento das alergias e a vida que esses bebês levavam. Eles observaram que o simples uso de chupeta  não influenciou no aparecimento de problemas alérgicos (ou seja, as crianças que chupavam chupeta e aquelas que não usavam tinham o mesmo risco de desenvolver alergia) , mas determinaram que crianças filhas de pais que limpavam a chupeta na própria boca (argh!) tinham menor chance de apresentar dermatite aos 18 ou 36 meses. Já a mesma relação não foi notada para a asma ou alergias alimentares. Outra relação que foi estabelecida foi a de um efeito protetor contra dermatite nas crianças que nasceram de parto normal, em comparação às nascidas por cesárea. E quando a criança tinha nascido de parto normal e seus pais chupavam a chupeta para limpá-la, o risco de desenvolver dermatite seria o menor de todos! A explicação dos pesquisadores para isso seria a de que, durante o parto normal ou quando os pais colocavam a chupeta do filho na boca, o bebê tinha contato com micro-organismos (da vagina da mãe, no caso do parto, e da boca dos pais, no caso da chupeta) e que isso estimularia o sistema imunológico do bebê de forma a não desenvolver alergia cutânea.

Publicidade

Bom, agora vamos à minha opinião sobre o estudo. Em primeiro lugar eu me pergunto se as crianças que tinham pais que colocavam a chupeta na própria boca para limpá-la teriam menor risco de dermatite porque recebiam essas bactérias da boca dos pais, ou se, de maneira geral, seriam filhos de pais mais desencanados, e menos propensos a um “excesso de limpeza” em suas casas. Digo isso porque algo que já foi demonstrado é que limpeza excessiva pode aumentar o risco de alergias (porque o bebê acaba tendo pouco contato com micro-organismos e por isso, seu sistema imunológico reconheceria tudo como estranho – o que em última análise levaria a um problema alérgico). Convenhamos: pais que colocam a chupeta do filho na boca para limpá-la não fazem o tipo de obsessivos por limpeza, concordam?

Agora o ponto mais importante da minha oposição ao estudo: já imaginaram todas as bactérias que seu filho receberia se você limpasse a chupeta dele na sua boca? Se muito pequeno, seu filhote pode herdar bactérias e vírus para os quais nem está ainda vacinado! Sem falar do ponto de vista odontológico (que posso falar com conhecimento de causa): bactérias que causam cárie ou doenças de gengiva são transmitidas dessa forma. Você tem sangramento gengival? Então provavelmente tem em sua boca bactérias que propiciam esse tipo de doença (você gostaria de transmiti-las a seu filhote?).

Por isso eu acho que o melhor mesmo continua sendo a esterilização de chupetas e mamadeiras, principalmente se seu filho ainda tiver poucos meses. Com o tempo, naturalmente ele ganhará resistência, e a esterilização passará a ser desnecessária. Concorda?

 

Para ler o artigo na íntegra (em inglês), clique aqui.