Puxa, quase oito anos escrevendo aqui no Mil Dicas de Mãe. Falando das dores e das alegrias de ter um filho, das dificuldades da amamentação, das horas passadas ao lado do berço, dos sentimentos tão contraditórios que a maternidade nos traz. Mas, pela primeira vez, resolvo compartilhar com você que, assim como muitas, muitas mulheres, eu também passei por um aborto espontâneo.

Sim, esse fato aconteceu há 6 anos. Então você pode imaginar que não foi fácil receber a notícia de uma nova gravidez, tão desejada, para alguns dias depois ver o sonho desaparecer de repente. Na época, eu sabia que seria praticamente impossível dar um irmão à Catarina, que já tinha sido meu pequeno milagre. Mas quis o destino que eu engravidasse novamente, apesar do diagnóstico de menopausa precoce, que recebi aos 30 anos (logo antes de engravidar de Cacá). Então, naquele dia do aborto espontâneo, eu senti que era minha última chance. Eu sabia que não engravidaria novamente, e de fato foi assim que aconteceu.

aborto espontâneo

Imagem: 123RF

O dia “D”

Fazia pouco tempo que eu havia descoberto a nova gravidez. E para uma mulher que recebeu a notícia de vários médicos de que não poderia mais ter filhos biológicos, eu me sentia como se tivesse ganho na loteria pela segunda vez. Diferente da primeira, da qual guardei segredo por 3 meses, contei para toda a família e amigos. E apenas uma semana depois, com 6 semanas de gestação, o sangramento aconteceu.

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Eu custei a acreditar que era um aborto. Achei que fosse apenas mais um sangramento, como os que tive na gestação de Catarina. Mas o fluxo foi aumentando, aumentando, até que percebi que havia algo errado. Liguei para o médico, que me explicou o que provavelmente havia ocorrido.

Alguns dias depois a confirmação: ao invés de aumentar, minha contagem de HCG havia diminuído. E foi simples assim, como se nunca tivesse ocorrido. Sem curetagem, sem qualquer procedimento. Sem ouvir o coração nenhuma vez.

A dor de um aborto espontâneo

Sinceramente, se você passou por um aborto espontâneo, eu só queria te dar um abraço. Dizer a você que tudo ficará bem, que depois de um tempo a dor da ferida fecha. E que, ao contrário do que eu passei, provavelmente você terá outras lindas chances de engravidar. Porque, diferente de mim, ainda não atingiu a menopausa.

Eu queria te dizer que sei que você pode estar se culpando. Pensando em todas as coisas que pode ter feito de errado. A comida que comeu, o remédio que tomou (ou deixou de tomar), o estresse pelo qual tem passado (afinal, essa vida de século XXI é estressante mesmo) e que poderia ser a causa da perda.

Mas eu queria dizer sobretudo que não é culpa sua. Porque mesmo que você tenha feito tudo certo, a taxa de aborto espontâneo até 35 anos é de 15%. Isso considerando as gestações que foram detectadas, porque se considerarmos os óvulos que foram fecundados, ela fica na faixa entre 30 e 50%. Preciso deixar isso claro, para que você deixe a culpa que não te pertence sair pela porta afora, para nunca mais voltar.

A verdade é que nem sempre uma gestação vai em frente, e a natureza se encarrega de deixá-lo ir. Quando um embrião que não está preparado para a vida surge na fecundação, é o melhor que pode ocorrer. Mas assim mesmo, quem é que disse que esse aborto espontâneo não dói na mãe, não é mesmo?

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Para você, que passou por um aborto

Eu desejo que você não sinta vergonha de contar para as pessoas queridas que não está mais grávida, e que saiba que tudo o que elas mais queriam é que você não estivesse sofrendo.

Eu espero que depois dos dias de lágrimas, você consiga olhar para as roupinhas que comprou, ou para o quarto que arrumou sem sentir seu coração despedaçar. A memória não se apaga, mas juro que o machucado cicatriza.

E, principalmente, eu torço para que você realize o sonho de uma nova gravidez em breve. Então volte para me contar.