Será que tudo passa na vida de mãe? Será que passa para todas as mães? Será que realmente queremos que as dificuldades do início passem, se considerarmos que outras coisas passarão junto? Um post lindo da querida Fabiana de Toledo com essa reflexão – vale a leitura!

Por Fabiana de Toledo

“Vai passar”. Quantas vezes já não ouvimos essa frase ou a martelamos para nós mesmas em nossa trajetória como mães? Incontáveis, com certeza. Essas duas palavrinhas nos acompanham pela vida materna, seja em forma de lema repetido por outras mães que buscam nos afagar, ou como um verdadeiro mantra, a que nos agarramos nos momentos mais difíceis de nossa jornada.

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A questão é que, de tão recorrente, o tal do “vai passar” foi ficando banal e perdendo significado. Porque, afinal de contas, será que tudo passa mesmo? E mais: será que a gente quer que passe? Ou ainda: será essa a melhor frase a se dizer para uma mãe aflita?

Imagem: 123RF

Alguns dos maiores lamentos e angústias da vida da nova mãe passam mesmo. As mamadas no meio da madrugada, o cansaço extremo pela privação de sono, as inseguranças e dúvidas por não entender o que o bebê quer, a dificuldade da introdução alimentar, o desfralde arrastado, a adaptação difícil na escolinha, a saga da chupeta, o desmame etc. etc. etc.

De alguma forma, esses impasses se ajeitam, se acomodam, se resolvem, mesmo quando as soluções não se apresentam exatamente da forma com que sonhamos. Eles, aos poucos, se transformam e vão embora porque simplesmente estão relacionados ao desenvolvimento dos nossos filhos. Portanto, eles passam ainda que a gente não faça nada para isso.

Ou seja, para que a profecia do “vai passar” se realize, em muitos casos, basta o tempo agir e os nossos pequenos crescerem. E aí a gente percebe que a verdade é que nem sempre desejamos de fato que aquilo passe. Sim, queremos que nossa cabeça esfrie e que nosso coração aquiete, mas não queremos acelerar o relógio e ver o nosso bebê virar criancinha em um piscar de olhos. Por isso que, diante de alguns lamentos, talvez fosse melhor dizer “fique em paz” do que lançar o voto “vai passar”.

Há também dores complexas ou extensas demais para serem acalmadas com um automático “vai passar”, dito no impulso. A perda de um filho, as dificuldades de uma mãe de criança com deficiência que não tem suas necessidades atendidas e a solidão de uma mãe solo que simplesmente não tem ninguém para ajudá-la são algumas delas. Nesses casos, o cotidiano se encarrega de apagar o incêndio dos corações em chamas e a vida apresenta caminhos para seguir em frente, mas o “vai passar” não se concretiza plenamente.

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Diante de uma realidade tão cheia de nuances, vale refletirmos se não estamos sendo pouco empáticas e imediatistas demais quando tentamos aliviar inquietações de mãe – as nossas e as alheias – com uma frase que não alcança a profundidade dos dilemas maternos. Que a gente deixe um pouco o “vai passar” de lado e, no lugar dele, coloque em prática gestos que funcionam pra valer: um abraço, uma prática de autocuidado, uma escuta com entrega, um relato sensível, uma oferta de ajuda inesperada. Que a gente saiba olhar para nossas emoções para ficarmos bem, mesmo se não passar.