Quando a falta de limite é dos pais

Por 31 Comentários


Quando eu ainda não era mãe, achava um absurdo criança birrenta. “A culpa é da mãe, que não educa direito; a responsabilidade é do pai, que o deixa fazer o que quer”. Essas eram frases que saíam frequentemente da minha boca, confesso. E só depois de vivenciar a maternidade e todas as suas nuances, eu descobri que as birras fazem parte do desenvolvimento normal de qualquer criança.

Imagem: nateOne via Compfight cc

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Hoje, quando vejo uma criança pequena chorando e esperneando para ter o que quer, paro para analisar a situação antes de julgá-la. Porque muitas vezes vejo uma mãe firme em sua posição de não dar aquilo que o filho quer (e é justamente por isso que ele está se jogando no chão no meio da loja de brinquedos). Ou que finge não ver o escândalo, para que o pequeno não sinta ter a plateia que está buscando (embora esteja de olho bem aberto e prestando bastante atenção em seu comportamento). Percebi que o discurso de culpabilizar os pais pela atitude do filho era simplista demais – quantas não foram as vezes em que vi uma criança se comportar de forma muito melhor após alguns meses, quando adquiria maturidade para compreender as regras definidas por seu pai e por sua mãe.

Mas, e sempre existe um mas, tenho que admitir que algumas vezes encontramos pela frente pais que não fazem a sua parte na educação dos filhos. Outro dia mesmo, presenciei em um parquinho uma cena que me fez refletir sobre o assunto. Havia várias crianças pequenas brincando, todas elas provavelmente menores do que cinco anos. Bem no meio, um pequeno escorregador que era a grande atração do local. Tudo ia muito bem, até que uma criança subiu no brinquedo, sentou-se e ali ficou. Claro que os outros também queriam escorregar e aguardavam (com certa impaciência, característica da idade) sua vez na fila.

Como o menininho não descia do escorregador, minha primeira impressão foi a de que ele estava com medo. Olhei ao redor para ver se identificava a mãe (pensei que provavelmente ela se levantaria e iria até ele, para incentivá-lo). Como ninguém se mexeu, procurei atentamente até perceber uma moça que estava próxima a mim, sem demonstrar qualquer preocupação com o que acontecia. “Ok, ela está distraída e não viu o filho”, pensei. Isso fazia total sentido para mim, pois eu mesma sou uma pessoa que às vezes “desliga” do mundo ao redor. Como as crianças estavam ficando exaltadas (e faltava pouco para que começassem a gritar – ou mesmo empurrar o menininho lá de cima), decidi conversar com ela sobre a situação.

Engana-se quem pensou que ela levantou do banco onde estava e foi até o filho. Engana-se também quem achou que ela o chamaria de onde estava, dizendo para ele descer, pois havia várias crianças que também desejavam usar o brinquedo. Quando comentei que seu filho já estava sentado no escorregador por alguns minutos, ela simplesmente respondeu: “ah, ele desce quando estiver com vontade”. Não sei por mais quanto tempo o menino ficou por ali, pois decidi que já era hora de ir embora com minha filha.

Esse é apenas um pequeno exemplo de como a falta de reconhecimento do espaço do outro pode ser um problema dos pais, mais do que dos filhos. É o mesmo caso da criança que chega à sua casa e chora na hora de ir embora, porque quer levar a naninha do seu filho (sim, aquela com a qual ele dorme todas as noites). Ao invés de explicar o quanto aquele objeto é importante para a outra criança, o que você ouve da mãe é: “Ah, ele pode levar, né?”. Ou ainda, é a mesma falta de limite do pai que recomenda ao filho: “ah, ele te bateu para pegar o brinquedo? Então bate nele e pega de volta”!

Quando presencio esse tipo de atitude dos pais, sinto, em primeiro lugar, uma enorme pena da criança. Porque certamente ela irá sofrer ao longo da vida. Depois eu avalio se vale a pena falar, com muito jeito, e tentar mostrar a esse pai que respeito é bom e todo mundo gosta. E, por vezes, decido que o melhor é se afastar, pois, infelizmente, muitos não têm ainda nem a capacidade de ouvir.




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Comentários (31)

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  1. Talita disse:

    Oi, Nívea! Leio o blog diariamente, mas acho que nunca deixei um comentário. Pois bem, esse artigo me fez vir aqui e escrever. Achei o texto perfeito! Penso exatamente assim, tanto em relação à compreensão da atitude de alguns pais que permitem um momento de birra pensando na educação de seus filhos, quanto em relação à má educação que em alguns casos é passada de pai para filho. Muitas vezes minha vontade é de educar o pais, mas na grande maioria dos casos acabo optando por me afastar também. Obrigada pela reflexão!

    • Nívea Salgado disse:

      Oi, Talita, tudo bem?

      Que legal que dessa vez você deixou um comentário! Amei, obrigada!

      Espero vê-la sempre por aqui. Vamos nos falando, ok?

      Mil beijos,

      Nívea

  2. Paola Gomes Carneiro H. Barbosa disse:

    Parabéns Nívea, adorei o post. E assim segue nossa sociedade….
    Nao precisa falar mais nada!
    Também tenho dó dessas crianças e prefiro me afastar do que falar algo tentando ajudar e me aborrecer com resposta mal educada.
    Beijos.

  3. concordo plenamente, por isso o mundo está cada vez pior…

  4. Antoniele disse:

    Muito complicado mesmo, mas só reflete a nossa sociedade atual, crianças precisam de amor e limites também! Amo seu blog, e os temas que você aborda! Bjusssss!!!

  5. Francielli disse:

    Olá Nívea! Adorei a postagem!!! Sempre julguei os pais das crianças que faziam birra em lojas e mercados. Hoje tenho a Cecília e 1 ano e 2 meses que faz birra desde os 10 meses! Estava desesperada em saber o meu erro! Tento elaborar estratégias para que ela consiga assimilar o que pode e não pode fazer, acho que a porção inata da personalidade facilita ou dificulta o trabalho das mães! Sempre falo que ter filho e ser mãe são coisas completamente diferentes, e hoje em dia faltam mães!

  6. Cris Mesquita disse:

    Educar exige uma dose significativa de paciência e entrega, algo, infelizmente, raro no tempo de hoje.
    Quando encontramos mães assim em ambientes de convívio eventual é desagradável e inquietante, mas o pior é quando encontramos na família…é desesperador!

  7. Suellen Skura disse:

    Colocação perfeita! Ótimo texto! Penso da mesma forma, mas o que costumo ver, infelizmente, é on contrário… Bjokas

  8. Ana Carolina disse:

    Super concordo,é a primeira vez que entro neste blog, e sinceramente adorei,ainda mais falando neste assunto super interessante!. beijoooos

  9. E VERDADE TEMOS QUE TER MUITA PACIENTE PARA ENTEDE ELES

  10. Adriana Ramos disse:

    Vivo situações como essa sempre, sem falar que meu filho tem 1,10 e uma criança do prédio todas as vezes que o vê quer batê-lo. O comportamento do meu filho é chorar e se afastar e o meu foi de avisar para a babá que infelizmente não quero mais a aproximação da criança. Percebo que é culpa dos pais, e isso acontece sempre que o encontramos.

  11. OK. Isso acontece MT.
    Hj estou enfrentando problemas com meu filho pois não me obedece.
    To vendo q seu post.e dicas, vim q procura pra ajudar neste problema. O q VC sugere?. Pq vi so comentário . não ajuda pra enfrentar o problema.

  12. A educação dos filhos é reflexo da educação dos pais.

  13. Muito bom esse texto, infelizmente ainda tem gente que não aprendeu a ouvir!!

  14. Gostei do post. É uma realidade. E infelizmente quem sofre são as crianças que crescem em meio a isto.

  15. Nemezio disse:

    Essa matéria deveria ser lida por todos pais, especialmente por estes que não educam seus filhos a respeitarem o espaço dos outros.

  16. Concordo plenamente e acrescento.. Os pais que param no meio de uma via movimentada par a buscar os filhos na escola tendo lugar para estacionar….

  17. Realmente existem pais que não sabem educar os filhos, texto mais que perfeito!!! Infelizmente ele aprenderá na vida e com certeza não será fácil.

  18. Caue Medeiros disse:

    Olá Nívea,

    Acredito que a educação começa desde a gestação e que cada “erro” cometido é acumulado assim como em uma relação entre cônjuges, gerando um efeito bola de neve. Esse episódio relatado (de criança que se joga no chão), penso que já seja uma bolinha considerável, porém a saída exemplificada é na minha opinião a mais correta.

  19. Karolyne disse:

    olá estou grávida de cinco meses de uma menina, mru primeiro bebê e já trabalhei em creche conheço um pouco o que muitas mamães passam para educar seus filhos… essa semana mesmo tive uma discussão com minha sogra,que ten uma filhinha de 6 aninhos, e é uma criança totalmente sem limites,só faz o que quer na hora que quer e ai de alguém reclamar,ela faz a maior cena…mas o que mais me irrita é que ela é uma menina muito egoísta não gosta de dividir nada com ninguém mas quer que todos dividam as coisas com ela…minha sogra me disse: ah quando sua filha nascer você vai ver que ela também vai ser assim…e meu marido já disse a gente vai levar como exemplo do que não fazer na hora de educar nossa filha…ai eu gostei de ver kkkkk

  20. Muito coerente suas colocações! Minha filha é do tipo que faz birra e só nós (eu e o pai) sabemos o quão duros somos com ela, exigindo sempre o respeito ao próximo e a seu espaço. Acreditamos que pais que aceitam tudo, são os que depois apanham dos próprios filhos exatamente por não lhes ensinar os limites.
    Parabéns pelo texto!

  21. Arianna Lacordiere disse:

    Ola Nivea, gostei muito do seu artigo e por isso gostaria de compartilhar o momento que estou vivendo. Tenho uma filhinha de 4 meses e embora seja muito tranquila, as vezes da birras. com o coração dilacerado procuro nao ceder as suas vontades mas me sinto culpada por acha-la muito novinha. o vc acha? A partir de quando uma criança de fato tem percepção de limite.

    • Nívea Salgado disse:

      Oi, Arianna, tudo bem?

      Eu já ouvi de uma pediatra que um bebê de 4 meses pode fazer manha. Mas, minha opinião pessoal: será que nos momentos em que teoricamente ela faz manha não está extremamente cansada? Pois todo bebê cansado é naturalmente mais manhoso.

      Psicologicamente, acho que um bebê com esse tempo de vida não é capaz de perceber limites – no máximo chorar porque quer colo, peito, etc. Ouvi nessa fase que minha filha fazia birra, que era difícil… Mas, sinceramente, ela dormia muito pouco, e esse era, ao meu ver, o grande problema. Com o passar do tempo, ela começou a dormir melhor, descansar mais, e as crises foram sumindo. Os testes de limite começaram, de verdade, aos dois anos.

      Beijos para você e para sua gatinha,

      Nívea

  22. Rafaéla disse:

    Oi Nivea td bem..
    Sempre que posso leio o blog em busca de orientações.
    Pois bem, também penso da mesma forma, embora meu filho nunca tenha dado birra á ponto de se jogar no chão, ás vezes, na maioria delas quando está na casa da avó paterna(eu e meu marido moramos numa casa no fundo)ele faz coisas erradas, e pelo fato de estar na casa da avó onde deixa ele fazer o que quer ele se sente livre para desobedecer eu e o pai dele. Hoje aconteceu o seguinte, ele pegou uma vassoura e jogando em direção ao rosto do seu padrinho, imediatamente eu e o pai dissemos á ele para nao fazer aquilo, pois nao podia era feio, falamos 3X e ele nao obedeceu, entao fomos até ele e falamos para ele descupar-se com o padrinho e ele nao quis, insisti para q pedisse desculpas mas nao quis, coloquei ele de castigo o resto da tarde, porém conversei com ele e expliquei o porque do castigo, ele costuma ppedir desculpas quando faz coisas erradas, mas desta vez nao quis, receio que foi pelo fato de estar perto da avó.. Ele tem 2 anos, mas como sempre converso com ele, ele costuma me ouvir.. Você acha que a minha atitude de deixar ele de castigo foi EXAGERADA…
    Beeijoss

    • Nívea Salgado disse:

      Oi, Rafaéla,

      Sei bem como essa fase é difícil – Catarina parecia preferir desobedecer quando estava próxima dos avós, tios, etc (acho que para chamar a atenção mesmo). Pessoalmente, acho que mostrar para a criança que desobedecer tem uma consequência, é importante – e isso a gente vai ajustando conforme a idade. Castigos de restrição de mobilidade (ficar sentado em algum lugar, por exemplo), podem ser mais breves, porque para os pequenos demora MUITO para passar (com 2 anos, 2 minutos; com 3 anos, 3 minutos, e assim vai). Mas se o castigo foi ficar sem algo que ele queria (um brinquedo, uma comida), aí sim acredito que possa ficar o resto da tarde, ou até o dia seguinte.

      Bjs, obrigada pelo carinho,

      Nívea

  23. Paulinha Oliviveira disse:

    Entrei sem querer querendo aqui. Entrei para pesquisar sobre rotina de bebe de 9 meses(hahahaha). E como sou muito curiosa com, blogs, historias, depoimentos e dia a dia vividos, entrei neste super tópico: limites dos pais.
    Nem me fale de limites de pais, já passei muita raiva aqui em casa, com papais(parentes) que não dão limites aos filhos, e não é julgando não, é vivendo com eles mesmo. aff
    Como falar, conversar, aconselhar uns pais desses??? Sem chances…

    Adorei seu blog

  24. Rodrigo disse:

    Olá Nívea! 🙂

    Parabéns pelo trabalho e obrigado por compartilhar.

    Fiquei com algumas dúvidas ao observar o seguinte trecho: “a mesma falta de limite do pai que recomenda ao filho: “ah, ele te bateu para pegar o brinquedo? Então bate nele e pega de volta”!”.

    Concordo que não seja uma boa indicação para o desenvolvimento de um indivíduo socialmente saudável, mas também não sei qual a atitude mais indicada… Você conhece algo que possa me ajudar com isso?

    • Nívea Salgado disse:

      Oi, Rodrigo,

      Minha opinião pessoal é que precisamos ensinar nossos filhos a se defenderem, e a se posicionarem. Mas sem tomarem a iniciativa de bater.

      Com minha filha, eu sempre ensinei que ela não precisava dar um brinquedo com que estivesse brincando naquele momento (e podia até soltar um grito para demarcar seu território). Se a coisa fosse para o lado do bater, ela deveria procurar o adulto que estivesse responsável no local (a professora, por exemplo) e explicasse o ocorrido. Quase sempre deu certo!

      Abraço!

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