A separação conjugal é uma realidade cada vez mais comum no país, inclusive em famílias com filhos, de acordo com os levantamentos do IBGE. Uma variedade de estudos ao redor do mundo já demonstrou que o divórcio não é um fator que gera traumas às crianças, por si só. De acordo com especialistas, o que costuma acontecer é que, junto com este rompimento, também vem uma série de outras situações, como brigas e hostilidades entre o casal, e que são esses os fatores que afetam a criança.

Inclusive, há alguns estudos que mostram que a separação conjugal pode ser um fator de proteção para o bom desenvolvimento dos filhos. Ou seja, existem situações em que a criança é mais beneficiada quando os pais se separam do que quando permanecem casados. De modo geral, isso ocorre quando o casamento já está ruído e os adultos vivem em contínuas brigas, acusações, gritos, discussões e hostilidades.

Como assim?

Essas pesquisas demonstram que é melhor para a criança ter seus pais separados, mas manter uma boa convivência com ambos e se sentir seguro nos espaços, do que residir com os pais em verdadeiras guerras. A estabilidade e a tranquilidade do ambiente são fundamentais para a criança, e isso independente dos pais viverem ou não como casal.

É muito importante que os pais sentem juntos e conversem com a criança sobre a separação. Esse momento precisa ser feito para que o filho consiga entender o que está acontecendo e quais mudanças vão ocorrer. Explique tudo o que você acha pertinente (deixando acusações, como traições, de lado – a criança não precisa ser exposta a isso!) e deixe a criança processar as informações e fazer as perguntas necessárias.

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Claro que a fase do desenvolvimento em que a criança está precisa ser levada em conta para essa conversa. Veja aqui algumas dicas de como lidar com essa conversa, dependendo da idade do seu filho. Boa leitura!

Como trabalhar a separação dos pais com bebês de até 01 ano de idade?

Crédito: Freepik

O bebê com 01 ano ou menos tem uma relação muito vincular com a mãe, principalmente devido ao parto e à amamentação (que costuma ainda estar ocorrendo). Especialistas contam que as emoções que a mulher vive são transmitidas para a criança não somente por sua sensibilidade ao ambiente, mas também pelos hormônios da mulher, que passam ao bebê através do leite. Por isso, quanto mais estressada a mulher estiver, mais evidente isso vai ficar ao bebê.

Mesmo que o bebê não consiga compreender cognitivamente o que está acontecendo, ele já sabe que há algo de errado no ar. É fundamental que crianças nessa fase tenham rotina, estabilidade e constância. Sem esses fatores dificilmente a criança conseguirá desenvolver segurança e confiança suficiente para manter saudável o seu desenvolvimento.

É comum que bebês que enfrentam a separação conjugal de seus pais fiquem irritados e tenham problemas de equilíbrio emocional, o que afeta a sua confiança. Isso acontece porque os adultos estão estressados, e não porque estão se separando. Estudos mostram que outras situações nas quais os adultos ficam igualdade estressados, mas não há relação com divórcio, geram os mesmos problemas no bebê. Choros frequentes e repetição de comportamentos de fases anteriores são comuns nessa fase. Essa é uma forma do pequenino mostrar que sente que algo está acontecendo.

Como agir com o bebê?

Mantenha-o fisicamente próximo. Lembre-se de que o bebê precisa de contato físico para se sentir amado e seguro. É importante para o bebê que tanto a mãe quanto o pai se façam presentes em sua vida, mesmo após a separação. Participe da rotina dele e deixe que o ex-companheiro também participe.

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Tente levar a relação com o pequeno o mais natural possível. Converse com ele, brinque, siga contando histórias e estando presente nas refeições. O bebê precisa te ver e te sentir. Para ele não importa se os pais estão juntos ou não, ele não compreende as coisas nessa dimensão. Mas é muito importante que ele consiga sentir o ambiente de forma segura e estável.

Como falar sobre o divórcio dos pais para crianças de 2 e 3 anos?

Crédito: Freepik

Apesar do vínculo com a mãe continuar muito fortalecido, a partir dos 2 anos de idade a criança já começa a estabelecer laços mais fortes com outras pessoas. Diferente dos bebês, nessa fase já é importante estabelecer um momento de diálogo, no qual a separação conjugal será explicada.

Fale para a criança que o divórcio terá implicações na rotina da criança, mas que isso não mudará o sentimento dos pais por ela. E não esqueça: é normal que a criança sinta que tem responsabilidade pelo rompimento, então lembre sempre de afirmar que ela não tem relação com o término.

Não apenas fale, mas mostre no cotidiano que a criança continuará convivendo tanto com a mãe quanto com o pai. Combinem junto com a criança sobre as apresentações da escola, os fins de semana, as férias escolares e etc. Se não for viável que os pais fiquem no mesmo ambiente depois da separação, façam acordos que permitam que ambos façam parte da vida da criança.

E se o pai se afastar?

Infelizmente, é uma realidade relativamente comum que os pais acabem se afastando mais do que o necessário das crianças após o divórcio. Apesar deste cenário estar mudando cada vez mais, ainda é preciso falarmos sobre as situações em que as crianças são abandonadas pelos pais depois da separação conjugal.

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Neste tipo de situação, garanta com ainda mais regularidade que a criança não tem culpa do divórcio. Evite ao máximo falar mal do ex-marido na presença da criança. Mesmo que você esteja machucada e se sinta injustiçada, isso é algo que deve ser resolvido entre os adultos e a criança não tem que passar por situações hostis.

Quando questionada sobre o pai, você pode dizer que não sabe, não há nada de errado em admitir o seu não-saber. Mas nunca, sob nenhuma hipótese, faça uso do argumento de falar debochada ou lamentosa em relação ao ex-companheiro. É possível falar que você não sabe sobre o dia a dia do pai sem que isso se torne uma ofensa ou xingamento. Guarde as suas mágoas para serem discutidas com amigas, familiares ou com a sua terapeuta, e não com a criança.

Como lidar com a separação conjugal com crianças entre 4 e 7 anos?

Família conversando sobre separação dos pais

Crédito: Freepik

Apesar de já iniciar por volta dos 2 anos e meio ou 3 anos, é nessa fase que são mais recorrentes os sentimentos de culpa. É claro que, com isso, seu filho provavelmente também vai achar que foi responsável pela separação dos adultos. Aqui é muito importante deixar a criança fazer quantas perguntas quiser – e é importante que as perguntas sejam respondidas com honestidade, mas sempre com cuidado.

Evite, por exemplo, afirmar que a razão da separação não é da criança porque o papai (ou a mamãe) fez algo. Ainda que isso seja verdade, qual o objetivo de expor a criança a essa situação? Além de não mudar o fato do divórcio, esse tipo de intervenção prejudica o desenvolvimento da criança. Lembre que as crianças respondem ao ambiente, e que todos os possíveis problemas gerados na criança precisarão ser tratados e precisarão contar com ainda mais energia, tempo e carga emocional dos adultos ao redor.

A partir dos 4 anos de idade é interessante que os adultos organizem a saída dos pertences do pai sem a presença da criança. Isso porque, nesta fase, o abandono é um medo constante e real (na concepção da criança). Opte por um dia ou horário em que a criança não esteja em casa, ou por uma forma gradativa de retirada dos objetos.

Como lidar com o divórcio sem traumatizar a criança?

O afastamento de um dos pais pode ser encarado pela criança como uma forma de a castigar por algo. Mais do que falar que ela não tem culpa, mostre isso. Chame a criança para conhecer a nova casa do pai. Deixe a criança conhecer o espaço e construir junto com o pai a criação desse novo lar: mostre os móveis novos, conte o que vocês poderão fazer na casa nos finais de semana, incentive que ela o visite fora das datas definidas. A melhor forma de garantir que ela não se sentirá abandonada é por meio da comprovação no dia a dia.

É normal, nessa fase, que a criança regrida no seu desenvolvimento. Por exemplo, não raramente crianças que passam pela separação dos pais voltam a ter pesadelos mais infantis, choram demais, fazem xixi na cama novamente, não querem dormir sozinhas e etc. Acolha essas dificuldades e deixe a criança falar dos seus medos. Se for necessário, procurar uma ajuda profissional também é uma alternativa viável e que costuma auxiliar nesses casos.

Como abordar a separação dos pais com crianças de 7 a 10 anos de idade?

Crédito: Freepik

A partir dos 7 anos de idade a criança começa a ter outros interesses para além da rede familiar. Por isso, é comum que crianças nessa fase comecem a apresentar mais independência e mais autonomia. Especialistas comentam que é muito comum as crianças com 7 anos ou mais procurarem a aprovação no grupo de iguais, como nos colegas da escola.

Nessa busca pela inclusão em grupos, a criança pode fazer uso da representação de seus pais como uma maneira de se afirmar entre os amigos. Por isso, quando a relação entre os pais ou dos pais com a criança está fragilizada, é possível que o filho se sinta inseguro. Quando isso ocorre a criança pode apresentar dificuldades mais graves de socialização e de interação com as pessoas.

Além dessa instabilidade, as crianças nessa fase podem apresentar um grande medo de perderem o seu pai (no caso das crianças que moram com a mãe). Outra fantasia muito comum entre crianças com 7 anos ou mais é a ideia de que poderão salvar o casamento se empenharem esforço o suficiente. Assim como nas fases anteriores, é muito importante que os adultos ao seu redor evitem ao máximo falar mal do ex-companheiro na presença da criança e demonstrem que a relação com ela não mudou, apesar de todas as outras mudanças que estão ocorrendo.

Polarização

Especialistas contam que é normal que as crianças que estão enfrentando a separação dos pais nesta fase acabem culpando um dos lados pelo rompimento. Como uma forma de dar sentido ao ocorrido, é possível que seu filho divida a mãe e o pai entre “um lado bom” e “um lado ruim”.

Exatamente por isso é fundamental que nenhum dos dois lados reforce essa ideia, pois, além de prejudicar a transição da criança, esse tipo de comportamento pode afetar o pequeno pelo resto da vida. Isso pode acontecer porque é possível que o trauma seja tamanho que serão necessários muitos anos de acompanhamento profissional para amenizar as marcas desse período.

Em fases anteriores é mais comum que a criança apresente regressão em seu desenvolvimento, como comentado anteriormente. Entretanto, isso não é muito comum a partir dos 7-8 anos de idade. Claro que pode ocorrer, mas o mais normal é que a criança comece a somatizar os sintomas e os sentimentos advindos da situação de separação. Isso quer dizer que seu filho pode apresentar uma queda significativa no rendimento escolar ou dores sem explicações clínicas (como enjoos ou dores de cabeça ou estômago, por exemplo).

Todavia, a somatização mais comum é a adoção de comportamentos agressivos e de indisciplina na escola, de acordo com estudos. É muito comum que os pais comecem a ser mais acionados pela escola a partir da decisão da separação conjugal. Essa pode ser uma forma da criança mostrar que não está encarando bem a situação e que precisa de acolhimento e atenção. Neste caso também é importante que seu filho possa ser acompanhado por um profissional, a fim de ter sua demanda devidamente acolhida.

Divórcio com crianças a partir de 10 anos ou com adolescentes. E agora?

Pais contando ao filho sobre separação conjugal

Crédito: Freepik

Após os 10 anos a criança já começa a entrar na pré-adolescência e, posteriormente, na adolescência. Nessa fase seu filho vai adentrar em uma série de transformações emocionais, cotidianas e físicas. Por exemplo, é nessa fase que começa a ficar mais evidente a atração que o pré-adolescente sente por outras pessoas (seja do sexo oposto ou do mesmo sexo). É também a partir daqui que seu corpo começará a mudar de forma mais acelerada, o que pode causar uma série de dúvidas e medos.

Essas mudanças todas podem provocar um turbilhão de oscilações no humor do seu filho. Todas estas transformações acabam ajudando a desenvolver um espaço extremamente fértil para as fantasias dele. Se por um lado isso pode ser explorado de forma muito positiva, essa mesma situação pode fazer com que o pré-adolescente (ou adolescente) crie hipóteses mirabolantes na cabeça sobre as possíveis razões do fim da relação entre os pais.

As angústias da adolescência

É melhor se preparar antes de chamar seu filho pré-adolescente e/ou adolescente para conversar sobre a separação conjugal. Nessa fase é normal que eles questionem tudo, incluindo as razões do término. É muito possível que os filhos nessa fase tomem partido abertamente, se mostrem intolerantes frente à decisão dos pais, critiquem a forma como a situação foi desenvolvida e comparem suas aptidões parentais com a de pessoas próximas – como tios, familiares de colegas da escola e etc.

Esse é um período repleto de angústias, de dúvidas, de medos e de inseguranças. Todo pré-adolescente e todo adolescente tem uma grande batalha consigo mesmo. Não se culpe e evite pensar que a separação é a causadora de todo esse turbilhão (mesmo quando o filho fizer uso desse argumento para tentar te atingir, talvez isso aconteça).

Especialistas relatam que é comum os pais sentirem culpa pelos comportamentos dos filhos que estão nessa fase e acabarem por reduzir a autonomia deles. Todavia, o indicado é que seja feito o oposto: é nessa fase que o adolescente precisa de mais liberdade e autonomia, então não puxe a rédea. Claro que isso não significa que o filho poderá fazer o que quiser, mas dê espaço para ele mostrar sua insatisfação e tente mostrar que você é um ser humano, que também tem sentimentos e que não tem todas as respostas. Está tudo bem ele te ver como uma pessoa com qualidades e com defeitos, desde que isso não cause desamparo ou insegurança.

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