Porque os filhos voam…

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Por Flávia Girardi

Meu avô chamava os netos de passarinhos do vô! Porque a gente cantava alto, trazia alegria, mas um dia, voaria para longe… Lembro-me dele tocando sanfona, dançando arrasta-pé com a gente, dirigindo um Opala cor de laranja para nos levar para passear. A gente pedia, ele ia. A gente queria doce, ele dava. Às vezes até antes do jantar e minha avó teimava!  Ele deixava tudo de lado para ficar com a gente, aproveitando cada segundo. Porque ele sabia que iria passar. Só fico triste porque ele voou cedo demais e não pôde ver os caminhos por onde nós iríamos trilhar. Nem chegou a conhecer meu marido e minha filha.

Mas entendo sua metáfora. É o amor que cuida, aprecia, se entrega, mas liberta. Confesso que, às vezes – e na maior parte das vezes – isso é um pouco difícil para mim. No fundo acho que quero manter “os meus” debaixo das minhas asas, para ter a sensação de que, assim, os protejo de tudo. Os amparo. Acolho. Impeço tudo que possa haver de mal no mundo de se aproximar.

Imagem: 123RF

Nunca tive apego a coisas materiais, já tirei roupa que nunca tinha usado do corpo para minha irmã usar, costumo doar coisas de tempos em tempos.  Enjoo e troco tudo do lugar: móveis, roupas de cama, brinquedos… Troco a cor da parede, pinto um quadro novo. Mas quando o assunto passa a ser pessoas, ainda tenho um árduo caminho a percorrer. Porque os quero sob meus olhos para ter certeza (ou a ilusão da certeza) de que está tudo bem. Me transformo num polvo que quer fazer tudo, evitar tudo, certificar-me de tudo… Cada dor deles, dói em mim.

Tento interiorizar que a vida é assim, feita de erros e acertos. De tropeços e voos. E que cada pedra que encontramos no caminho nos torna mais fortes. Isso tudo para me consolar de que nunca terei o controle de tudo. As coisas são como são.

E sempre tento me lembrar do meu avô. Da maneira como ele nos via e entendia que a vida é assim. Breve. Cabe a nós não desperdiçar.

Fiz essa poesia para ele antes da Alice nascer (e eu renascer para o mundo com outros olhos). Toda vez que aquele amor que sufoca começa a reinar eu a releio. Para lembrar que todo passarinho precisa voar.

“Ah, eu nasci para ser passarinho,

Cantar bem alto, abrir caminho

Olhar de cima o mundo e as cores

Sentir o vento, beijar as flores

E quando cansado, voltar pro ninho

Fazendo amigos, vivendo amores

Andar em bando e voar sozinho”


 



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