Eu tenho algumas memórias muito fortes da infância. E, certamente, uma delas (talvez a principal) é da relação que eu tinha com minha mãe. Puxa, como nós conversávamos! Comigo, ela dividia alguns de seus maiores medos, suas maiores alegrias!

Lembro-me das crises de asma, por volta dos seis, sete anos de idade. E de como minha mãe dizia que meu pediatra falava que ela sentiria saudade daquela fase. “Eu certamente não sentirei”, eu pensava. “Pelo menos não das inalações, das noites correndo para o pronto-socorro”. E ficava imaginando se minha mãe era feliz, a ponto de poder considerar aquela uma linda etapa de sua vida.

Imagem: 123RF

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O tempo passou e eu cheguei à adolescência. E não é que não demorou para ouvir de minha mãe o quanto ela sentia falta da minha infância? Ela dizia que era muito mais fácil lidar com as crises de falta de ar, com as febres, com o choro (que, em geral, poderia ter suas causas resumidas a fome, sono, uma virose que estava se instalando, ou uma disputa por algum brinquedos com minhas irmãs), do que com as noites em claro, esperando que eu chegasse de uma festa. Que muito mais impotente do que frente a uma doença, ela se sentia quando enxergava em mim a tristeza que o mundo vai, aos poucos, apresentando.

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Pois é, eu cheguei à idade adulta. Casei e vivi alguns anos na mais completa paz – com direito a jantares românticos na varanda, durante as noites de verão. Fizemos, eu e meu marido, viagens incríveis, fomos a restaurantes bacanérrimos. E quando parecia que não dava para ficar mais perfeito, resolvemos ter um filho.

Então Catarina nasceu. Aquela vida pacífica deu lugar a uma outra, turbulenta, urgente, como só sabe quem já é mãe e corre para atender um filho. O luxo das melhores comidinhas da cidade deu lugar à uma suculenta pizza (só de não precisar sair de casa com um bebê pequeno e de não ter que ir para o fogão, você já se dá mais do que por satisfeita).

Eu perdi muitas roupas pelo caminho. Aliás, perdi até sapatos (e quem não acredita que gravidez faz o pé de algumas mães crescerem, pode vir falar comigo!). Perdi para a maternidade alguns sonhos – ou melhor, os substituí por outros, em que a pequena estava presente. Perdi o direito de dormir pesado, de acordar tarde aos fins de semana, de comer comida quente, de simplesmente deitar no sofá no auge do cansaço, de ficar em silêncio (e como ele faz falta! E olha que nunca pensei que um dia diria isso!). Perdi o sofá branco para as canetinhas, o chão lustrado da casa para o patinete. Perdi o direito de sair de casa, ou de tomar um avião sem me preocupar se voltaria.

E com tantas perdas, é de se espantar que o saldo seja tão positivo! Eu poderia dizer que ganhei mil coisas: uma companheira para a vida toda, alguém por quem lutar nos dias mais difíceis, dois olhinhos que me olham com um grau máximo de admiração, um toquinho de gente que me faz mais forte quando pede colo, quando mostra um dodói achando que meu beijo é o melhor dos remédios. Mas o maior de todos os ganhos foi a oportunidade de conhecer o amor de perto, aquele sentimento que só dá, sem querer nada em troca. E daí você vê que frente a ele, tudo é tão pequeno…

Não é fácil arrancar a casca da mulher independente para mostrar que ali dentro mora uma mãe. Que sente, que chora, que sofre. Que por vezes se apavora, duvida se própria capacidade, que se culpa por não conseguir fazer sempre o melhor. Mas que é mil vezes mais forte do que aquela outra, que deixou para trás, e que achava que sabia tanto sobre a vida… Não, alguma coisa muda completamente lá no fundo quando é você quem traz à vida!

E apesar da sensação de que estou sempre correndo em círculos, da vontade de fechar os olhos ao fim do dia desejando que a pequena só acorde dali a doze horas, da falta de tempo para ligar para as amigas, para a mãe, para a avó (e como é triste perceber que os dias passaram e você não ligou, simplesmente porque só conseguiu se lembrar entre às 23h e meia-noite, hora em que teve cinco minutos para pensar na própria vida!), eu posso dizer que sou feliz. E sei que você, que divide essa mesma etapa da vida comigo, também é. Simplesmente porque o filho dorme sossegado no quarto ao lado, porque você sabe que a maior de suas preocupações é a cólica ou o monstro do pesadelo, porque você se sente tão, mas tão útil, que segue em frente sem se importar com as pedras pelo caminho.

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Como é boa essa etapa da vida! Como é bom se sentir tão amada!