Esses dias estive pensando sobre os primeiros meses de Catarina. Certamente, foi a fase mais difícil da minha vida – com um bebê para cuidar, sem entender o motivo dos choros, com a avalanche de hormônios característica do pós-parto. Quanto mais o tempo passa, mais acredito que a grande dificuldade inicial que tive como mãe estava ligada ao choque que senti com a chegada da maternidade. Porque quando um filho nasce, você deixa de ser cuidada, para cuidar. E isso muda absolutamente tudo.

Martin Gommel via Compfight cc

Martin Gommel / Creative Commons

Como foi sofrida, para mim, essa transformação. Até então, eu tinha liberdade para ir e vir, trabalhava, fazia pós-graduação, interagia no mundo dos adultos 100% do tempo. Eu era a esposinha linda, inteligente, que viajava com o marido aos fins de semana sem precisar se programar muito tempo antes. Eu ia a bons restaurantes, comia uma deliciosa comida quentinha e ocasionalmente fazia umas comprinhas – um sapato, uma bolsa, um vestido novo. E, olha, isso tudo era muito bom.

Aí Catarina nasceu. E não dava mais para fazer tudo aquilo que eu fazia. Sair de casa? Para estar de volta em no máximo uma hora? Comida quente? Nem a feita no meu fogão, porque se a pequena chorasse na primeira garfada, eu deixava tudo para ampará-la e só terminava quando o prato tinha ficado gelado (cansada e com fome, você come daquele jeito mesmo – nem coragem para esquentar no microondas rola).

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Mas depois que o choque inicial passa, a verdade é que você se acostuma a essa nova vida. Pensar no filho em primeiro lugar vira automático, e você passa a organizar sua vida colocando-se em segundo plano. Segundo não, último. Porque antes vem o filho, o marido (que, coitado, precisa da sua atenção para não se sentir o abajur da casa após a chegada do bebê), a mãe, as irmãs, as amigas… E lá no fim da fila, aquela última cabecinha que quase não dá para enxergar, é você.

Não sei se é por auto-proteção (já que a mudança é inevitável, seu cérebro tenta tirar alguma vantagem dela), mas pode ser que você até se sinta orgulhosa por colocar todo mundo na sua frente. Você pensa assim: “puxa, eu sou mesmo muito bacana, olha só quanta coisa eu sou capaz de fazer!”. É praticamente como se você fosse a mulher maravilha – poderosa, generosa, sempre preocupada em ajudar.

Aí o tempo passa mais um pouco. Seus dias se dividem entre brincar com o filho, levá-lo para a escola, para o ballet, o inglês… Fazer supermercado, preparar as refeições, dar comida, banho, colocar o filhote para dormir, levá-lo ao médico… Você é capaz de desmarcar tudo quando o filho fica doente – até aquela consulta, com o seu médico, que você levou meses para tomar coragem de marcar. Fazendo um balanço de como tenho cuidado da minha própria saúde desde que Catarina nasceu, percebi que nunca mais voltei ao dentista, não retornei ao médico com os exames que ele pediu no ano passado e só estou retornando nesse ano porque percebi que ou faço isso, ou  estarei mal nos próximos meses.

Isso tudo é para dizer que é muito fácil se esquecer de cuidar de si mesma. Você pode até achar que não precisa, que é forte, que dá conta do recado. Mas uma hora a bomba explode. Sabe aquela velha história de colocar a máscara primeiro em você, se o avião despressurizar? Não é à toa, não – porque você acha que vai dar conta do recado, mas não dá. Repare no número de amigas que, do nada, ficam doentes, a ponto de serem internadas aos seus 35, 40 anos. Não são poucas…

Ser mãe é ter que equilibrar um monte de pratos ao mesmo tempo. E de vez em quando um se desestabiliza – aí você dá uma corridinha, coloca mais atenção ali, para que eles voltem a girar em harmonia. Mas se o equilibrista cai, não sobra um prato no ar, já pensou nisso? Por aqui estou começando a colocar na agenda um horário para cuidar de mim. E tenho certeza de que passarei a ser uma mãe, uma esposa, uma filha e uma amiga muito melhor depois disso.