Uma simples cabana…

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Por Flávia Girardi (autora do blog Cartas para Alice, acompanhe aqui)

Vi outro dia no Instagram a foto de uma menininha brincando em uma “cabaninha” improvisada debaixo da mesa, e fiquei me perguntando: “por que será que gostamos tanto de complicar as coisas?”Por que, para a gente, os-adultos-que-acham-que-sabem-tudo, as coisas são sempre mais pesadas e difíceis do que para uma criança?

Porque para elas basta o lençol que vira cabana. Elas não precisam daqueles modelos caros (e lindos!) que vendem nas lojas. Elas não precisam de piscinas enormes (quantas vezes a Alice já não se divertiu em um balde – e ela quase nem cabia dentro!). É a gente que quer coisas, para eles, o mundo já basta. Para a gente, nada no mundo é suficiente… É claro que é importante almejar coisas boas, correr atrás, para não ficar estagnado. Sonhar é sempre fundamental! Mas seria bom se pudéssemos também olhar para o agora. O que temos nas mãos nesse instante – porque dali a pouco, já terá passado.

Imagem: 123RF

Lembrei de um dia em que a Alice brincava feliz da vida empilhando umas tampas coloridas de tupperware e eu, para “incrementar” o ambiente lúdico, achei que faltava uma musiquinha, e lá fui colocar a Galinha Pintadinha na TV. Ela imediatamente parou de brincar e foi assistir ao desenho. Eu, na minha ansiedade, na minha necessidade de fazer algo a mais, consegui, em menos de um segundo, destruir todo aquele processo criativo e simples em que ela estava. E me perguntei: “quantas vezes já fiz isso?”. Quantas vezes nós não “estragamos” a beleza da simplicidade fazendo algo a mais? Mais do que o preciso, mais do que o necessário.

Quando eu era repórter de uma emissora de TV, fizemos umas matérias com índios de uma aldeia, que, embora tivessem contato com a civilização, viviam como seus ancestrais. Estudavam sua língua nativa e moravam em casinhas como as tradicionais ocas. Lembro-me de ficar um pouco assustada com aquilo tudo e de pensar que estavam sendo “privados” de tantas coisas. Mas depois entendi que, para entrar no universo do outro, precisamos abrir mão daquelas verdades absolutas que carregamos (e que às vezes nos pesam tanto). Olhar o outro sem julgar, para tentar entender. E assim a gente aprende bem mais.

Essa é a visão da criança (e que nós adultos temos tanta dificuldade de enxergar). É o olhar do possível. Da porta aberta, da simplicidade. Dizem que quando nasce uma criança, nasce também uma mãe (uma nova pessoa). Essa frase, por mais clichê que possa ser, é a mais pura verdade. Uma criança nos coloca em cheque a cada dia, nos abre uma porta a cada dia. Nos liberta de tantas amarras. Quando estou eu, entrando novamente no meu universo de verdades absolutas e irrefutáveis, lá vem ela para me resgatar. Quando estou irritada, com pressa, querendo as coisas do meu jeito, lá vem ela dormindo na hora de sair de casa, comendo um doce no lugar do almoço e dando gargalhadas, porque o sorvete caiu no chão. “Alice limpa, mamãe…” Porque a vida pode ser simples assim.






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