Congelamento de óvulos: o que você precisa saber se ainda quer ser mãe

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Muita gente me pergunta se Catarina não terá irmãos. Embora eu tivesse muita vontade de ter um segundo filho, eu sei que isso não acontecerá. Como comentei nesse post aqui, eu recebi o diagnóstico de menopausa precoce alguns meses antes de engravidar da pequena, e a considero um verdadeiro milagre em minha vida.

Basicamente eu não tenho mais óvulos para serem fertilizados (por isso nem uma Fertilização In Vitro funcionaria, a não ser que fosse feita com o óvulo de outra mulher – um processo chamado ovodoação). Por isso, sempre que uma mulher que ainda deseja ter filhos (seja o primeiro, o segundo ou o terceiro) me procura para falar sobre essa vontade, eu recomendo que ela pense bastante no futuro, enquanto ainda está em uma idade fértil. Por uma questão física, nós, mulheres, só podemos ter filhos biológicos até uma certa idade – e precisamos nos programar com antecedência, se quisermos uma gravidez em idade mais tardia. 

Nesse post eu trago uma entrevista com o Doutor Rodrigo da Rosa Filho, especialista em Reprodução Humana, sobre o congelamento de óvulos – uma técnica que visa manter a possibilidade de gestação a longo prazo. Ele passa a contribuir com o blog para ajudar as mulheres que têm dificuldade para engravidar e que desejam informações corretas sobre as questões que envolvem a infertilidade.

Imagem: 123RF

1 – Uma tendência da atualidade é que as mulheres despertem para o desejo da maternidade cada vez mais tarde. Muitos são os fatores para isso: maior envolvimento com a carreira profissional, desejo de investir em projetos pessoais, o próprio casamento, que acontece numa idade mais avançada do que nas gerações anteriores. Existe uma idade limite para ser mãe? Como o avanço da ciência tem lidado com essa questão?

A idade não é o principal limitador da fertilidade. A chance do casal engravidar por mês de tentativa é de cerca de 20% aos 30 anos, caindo para 12% aos 35 anos e apenas 5% aos 40 anos. Além disso, a chance de perda gestacional aumenta também, sendo que até 15% das gestações não evoluem nas pacientes até os 35 anos, enquanto que nas pacientes com 40 anos cerca de 30% a 40% das gestações ocorrem abortos espontâneos. O risco de Síndrome de Down é de 1 para cada 1000 nascimentos aos 25 anos, 1 para cada 350 aos 35 anos e 1 para cada 100 aos 40 anos. 

Se a tentativa para engravidar passou de um (1) ano após os 35 anos, a recomendação é procurar um especialista em reprodução assistida. Os tratamentos aumentam a chance de gravidez, mas as taxas de sucesso variam de acordo com a idade da mulher, pois não há técnicas que aumentem a qualidade dos óvulos. As chances de dar certo com a fertilização in vitro variam de 40% a 50% nas mulheres com 35 anos, caindo para 15% nas mulheres com 40 anos. É importante saber que os avanços da medicina permitem que a mulher possa adiar a maternidade e com ajuda médica, obter uma gestação tranquila. 

 

2 – O congelamento de óvulos é tido como uma ação importante a ser tomada pelas mulheres que desejam postergar a decisão da maternidade. Qual é a melhor idade para fazê-lo?

Para preservar a fertilidade e adiar a gestação com segurança, a alternativa é o congelamento de óvulos.​ 

A mulher nasce com todo o estoque de óvulos que, ao longo dos anos, vão se perdendo. Aos 35 anos, o número de óvulos é de apenas 10% do número ao nascimento. Além da perda de quantidade, há perda da qualidade dos óvulos. Cresce o número de óvulos com alterações genéticas e de embriões com má-formações, diminuindo a chance de gravidez espontânea e aumentando a probabilidade de abortos. Na clínica de reprodução assistida, a procura das pacientes acima dos 35 anos chega a 70% de todos os casos atendidos.

A melhor idade para o congelamento de óvulos é entre 20 e 35 anos. 

 

3 – Sobre o congelamento de óvulos: ele é possível para todas as mulheres? Há alguma contra-indicação? 

O congelamento de óvulos é indicado para pacientes que possuem o desejo de engravidar futuramente, mas ainda não se consideram no momento certo para isso. No entanto, existem outras razões para uma paciente considerar o congelamento de óvulos, tais como:

Preservação da fertilidade: Alguns tratamentos oncológicos, como a radioterapia ou a quimioterapia, podem afetar a fertilidade. Nesses casos, o congelamento de óvulos é realizado antes de a mulher iniciar o tratamento contra o câncer, permitindo que ela tenha um filho biológico futuramente.

Tratamento de fertilização in vitro: Nos casos em que a coleta de espermatozoides do parceiro da paciente não resulta em um número considerado ideal para a FIV, os óvulos coletados no procedimento poderão ser congelados para aguardar uma coleta melhor de gametas masculinos. Existem também casos de mulheres que preferem congelar os óvulos excedentes resultantes da indução ovulatória que é realizada durante o tratamento de fertilização in vitro, como uma garantia para próximas gestações ou casos de falhas.

Baixa reserva ovariana: Congelar os óvulos pode ser uma opção importante para pacientes que apresentam histórico familiar de menopausa precoce e se preocupam com a possibilidade de não conseguir engravidar devido à reserva ovariana baixar mais rapidamente com o passar dos anos.

De uma maneira geral, é fundamental buscar a orientação de um especialista em reprodução humana caso esteja considerando a ideia de congelar os óvulos para engravidar futuramente, independentemente do motivo envolvido com a decisão da paciente. Apenas um profissional poderá indicar se o procedimento é realmente necessário ou viável para o caso.​

 

4 – Em linhas gerais, como é o processo de congelamento de óvulos? 

Para o congelamento, os ovários são estimulados com a administração de hormônios para obtenção de um maior número de óvulos. A coleta dos óvulos é realizada por uma punção realizada via transvaginal, sob anestesia. Os óvulos maduros gerados através da fertilização in vitro são congelados e podem ser armazenados durante anos. O estímulo pode ser iniciado em qualquer fase do ciclo menstrual e dura cerca de 15 dias, não adiando o tratamento quimioterápico do câncer.​

​Depois​ injeta-se um espermatozoide diretamente no interior do óvulo descongelado, através da micromanipulação dos gametas. Os óvulos são fertilizados e, após acompanhamento e seleção, os embriões são transferidos para o interior da cavidade uterina. ​

O número de embriões transferidos varia de acordo com o caso, podendo ser no máximo dois em mulheres de até 35 anos, três embriões em mulheres dos 36 aos 39 anos, e até quatro nas acima de 39 anos. A taxa de sucesso varia de acordo com a idade da mulher e com as causas da infertilidade.

 

5 – Quando uma mulher se decide pelo congelamento, o que ela deve avaliar na escolha da equipe médica para assessora-la? O procedimento está disponível no SUS, ou apenas em clínicas particulares?

​O congelamento de óvulos para preservação da fertilidade em caráter social e não oncológico só está disponível em clínicas privadas. A escolha da paciente deve ser por um médico de confiança e um bom laboratório de fertilização in vitro. Para isso, sempre é válido fazer pesquisas a respeito da credibilidade do profissional e sua equipe.​

* O médico Rodrigo da Rosa Filho é especialista em reprodução humana. Graduado em medicina pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp/EPM), é membro da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH) e da Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia do Estado de São Paulo (SOGESP), e co-autor/colaborador do livro “Atlas de Reprodução Humana” da SBRH e autor do livro” Ginecologia e Obstetrícia- Casos clínicos” (2013). Contato: (11) 4323 4462.




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