O olhar de uma gêmea sobre as individualidades e sobre os desafios da maternidade

Por 1 Comentário


Você é mãe de gêmeos e gostaria de saber o que seus filhos pensam sobre essa semelhança que eles demonstram? Queria entender o que sentem, o como gostaria que os outros os tratassem, apesar de parecerem tão iguais? Pois então o post de hoje é imperdível – ele foi escrito por uma querida leitora do blog, que cresceu com sua irmã gêmea e que hoje entende também o outro lado, o da maternidade!

Eu adorei a leitura, e espero que vocês curtam muito também!

*Por Carol Bessa, gêmea da Fernanda, mãe da Marina e tia da Cacá e do Tomás.

Minha irmã gêmea: amiga, confidente e meu melhor presente, até a chegada da minha filha. Sua filha é como se fosse a minha, um amor tão grande e surpreendente. E a minha filha é parte dela também. Lá no fundo sempre foi assim, mas quando eramos pequenas e, sobretudo, no começo da adolescência, muitas vezes, não era “tãao” bacana ter uma gêmea.

Lembro da minha irmã me dizendo: “eu odeio ser gêmea!”. Em geral, eu também pensava isso, mas raras vezes falava. Acho que é porque, no fundo, eu bem que gostava, porque a admirava e, às vezes, queria ser ela – porque ser gêmeo tem isso: a gente não quer ser igual, mas tem horas que bate um desejo de ser o outro. Então, era até bem legal ser parecida com a Fê. A raiva de ser gêmea aparecia geralmente mais forte quando alguém comparava a gente ou quando a gente cismava que queria muito usar a mesma roupa ou a mesma cor. Um parentêses aqui: eu e a Fê nunca usavámos roupas iguais, mas na adolescência a gente dividia e usava roupas emprestadas uma da outra. Então, imagina o caos quando nós duas queriamos usar aquele casaco “liindo”? E quando decidíamos que queríamos usar roupas diferentes, mas da mesma cor? Não podia, porque a gente não podia ficar mais parecida ainda… Nunca!

Imagem: 123RF

Imagem: 123RF

Se você é mãe de gêmeos, certamente já vivenciou alguma situação semelhante! Ainda que seus filhos não tenham chegado à adolescência, aposto que brigas por brinquedos, umas mordidas no irmão (quem nunca fez isso?), briga por roupas, etc já aconteceram na sua casa – um prenúncio de algumas tempestades divertidas (ou nem tanto!) na vida de qualquer mãe de gêmeos.

Imagino que minha mãe e meu pai devem ter levado o maior susto quando souberam que eram duas, e não uma só acomodada na barriga. Se nenhuma criança vem com manual (apesar de tantas informações sobre maternidade, em boa parte do tempo, a gente aprende a ser mãe na prática e seguindo nossa intuição) imagina tendo gêmeos! E, pelo que vejo, esse manual dos gêmeos ainda não existe depois de quase quarenta anos! Decidi, assim, dividir algumas experiências de uma gêmea que também é mãe, também é tia e convive com todos os dilemas da maternidade e de ter irmãos (porque apesar de ser delicioso tudo isso, tem horas em que a gente acha uma loucura total essa tal de família).

Quando ficamos grávidas, por exemplo, muita gente, tentando ajudar, fala um monte de coisas que não deveria: conta que uma conhecida perdeu o filho, que outra tentou o parto normal e não conseguiu… e por aí vai. No caso de gêmeos, é super comum que as pessoas comparem um com o outro, e nessa comparação acabam sendo infelizes, ou minando a nossa tão essencial individualidade. Vem uma tia simpática e diz: “uma é mais simpática, a outra é mais séria, né?”. “Olha, ela tem rosto mais redondo e é mais baixa”. Não que as pessoas não possam perceber a verdade e não possam externar. Mas o jeito que externam é que é pode ser negativo para quem é gêmeo – tanto faz se são do mesmo sexo ou um casal. Como se o fato de sermos diferentes em algum aspecto fosse alguma aberração, já que nascemos da mesma barriga ou da mesma placenta! Então quer dizer que temos que ser uma cópia fiel um do outro? Aí eu me lembro muito de uma das minhas personagens preferidas: a Raquel, da querida Lygia Bojunga Nunes, em Bolsa Amarela. Quando a Raquel ficava com raiva ou triste com os adultos, a vontade de crescer se tornava cada vez maior (quem nunca, quando criança, teve vontade de se tornar um adulto?). Ela queria ser grande para não viver chateações, e os gêmeos querem ser únicos e não um bloco de pessoa só.

Sobre esse ponto, instrua, na medida do possível, para que as pessoas evitem fazer comparações na frente dos seus filhos e você também evite fazê-las –  afinal, mães atentas também podem errar. Quem nunca se irritou, gritou ou perdeu a paciência com o pequeno, mesmo sabendo que não era a coisa mais adequada a fazer? Claro que qualquer gêmeo vai sobreviver às comparações – hora ou outra elas são inevitáveis, mas amenizá-las, em muitos momentos (acredite!), fará bem para a individualidade dos seus filhos, especialmente quando pequenos.

Conto aqui, ainda, algumas situações em que certamente você vai se identificar: coisas que os gêmeos detestam ou adoram e que vão te ajudar no dia a dia ou, pelo menos, te farão refletir ou rir:

Os gêmeos destestam:

1) Vestir-se iguais: a não ser para ir para a escola com uniforme, a gente não gosta. E acho que mesmo bebês, a gente percebe quando estamos com a mesma roupa (risos!).

2) Que as pessoas nos confundam, troquem os nomes ou façam brincadeiras com isso: quando somos maiores é a maior diversão, mas quando somos pequenos, não gostamos nem um pouco. Lembro quando tinha 10 anos, estava fazendo uma prova e fui ao banheiro. A professora de matemática saiu da sala, buscou a minha irmã na sala ao lado e a colocou para sentar no meu lugar. Todo mundo entrou na brincadeira e, quando cheguei de volta à sala, todos brincavam que eu entrei na sala errada. Até acabar a situação (que deve ter durado pouco tempo, mas para mim parecia uma eternidade), fiquei com raiva, nervosa e triste. Minha irmã? Igual. Conclusão: perdi parte da prova, minha irmã parte da aula dela. Hoje parece muito engraçado, claro, mas, para as crianças pode ser meio constrangedor.

3) Que ninguém nos perceba como pessoas diferentes: outro dia li uma matéria antiga, sobre como educar gêmeos, e uma especialista em família dizia que era preciso respeitar as diferenças e personalidades. Concordo totalmente, um pode amar livros e o outro preferir jogos, um ser mais emotivo e o outro mais irritado. Enfim, tratar os gêmeos da forma como cada um é irá, de verdade, reforçar positivamente a autoestima e a segurança dos filhos. E vai minimizar, à medida que crescem, as dificuldades de cada um em perceber suas particularidades – as dores e as delícias de ser quem se é.

 

Nós adoramos:

Por outro lado, os gêmeos são muito amigos e o amor entre eles (é fato!) é muito intenso e diferente. É quase umbilical!

1) Brigamos, mas nos protegemos: apesar de brigarmos muito algumas vezes, se meu pai ou minha mãe brigassem com a minha irmã, eu a defendia e vice-versa. Eu brigava com ela e ela comigo, mas se percebíamos que íamos levar bronca… A gente escondia tudo dos nossos pais. Se falassem mal da minha irmã, eu virava bicho e vice-versa.

2) Trocar de cama: a gente dormia no mesmo quarto (e com gêmeos acho que, em geral, é o que acontece) e de vez em quando era ótimo dormir uma na cama da outra. Além de divertido, claro!  Com uns oito anos, pedimos para dormir em quartos diferentes, mas a empolgação durou pouco: nós sentiamos falta uma da outra. E, em pouco tempo, voltamos para o mesmo quarto!

3) Conversar, conversar e brincar: não tem coisa mais gostosa do que brincar e conversar com o irmão gêmeo. Desde muito pequenos, pode reparar, a gente nunca se sente completamente sozinho e há sempre alguém da mesma idade, que nos entende perfeitamente. O primeiro dia na escola nova e o primeiro recreio assustam? Para os gêmeos, acredite, é um pouco menos sofrido. Ainda que estejam em classes separadas, eles sempre saberão que têm companhia e um apoio moral.

Ser gêmeo tem suas complicações, mas também tem delícias! E tenho certeza de que ser mãe de gêmeos, embora seja um desafio colossal, pode ser muito enriquecedor para quem faz da maternidade um exercício de aprendizagem e de crescimento!




Arquivado em: Comportamento Tags:

Comentários (1)

Trackback URL

  1. Jessica disse:

    Super assim, sou gêmea e eu e minha irmã sempre gostávamosde estar parecidas mas ao mesmo tempo de ser unica. As vezes eu sentia vontade de ser minha irmã mesmo.
    Hoje somos adultas, casadas e com filhos e amo minha sobrinha como se fosse minha filha e minha irmã ama meus filhos como se fossem dela também, e quase todos os dias estamos juntas mesmo morando pouco distante uma da outra.

Deixe seu comentário

Receba nossas dicas por e-mail