O dia em que eu deixei você cair, minha filha

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Querida filha,

Hoje foi um dia do qual eu nunca me esquecerei. Tenho certeza de que em um, dois, ou no máximo três anos, você não se recordará dele. Mas eu, nem que cem anos se passem, deixarei de recordá-lo. Olha que coisa aparentemente banal: você caiu do patinete. Não foi a primeira vez, mas certamente foi o tombo mais feio. Você tentou descer a maior ladeira do nosso condomínio, e dessa vez a queda te machucou.

Lembrando agora, não sei por que deixei que você descesse a tal rampa. Eu estava lá em cima quando você disse: “nos vemos lá embaixo, mãe!”. Eu sabia que era um desafio grande para você, para o qual você podia não estar preparada. Eu sabia que não eram pequenas as chances de você cair, porque outras crianças já tinham caído ali. Mas não esbocei qualquer reação de te impedir. Talvez porque achasse que você desceria brecando, como já tinha feito antes em descidas menores; talvez porque acreditei que, mesmo descendo rapidamente, você conseguiria chegar com perfeição ao final.

Imagem: 123RF

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Você acelerou. Cheguei a ter aquele segundo de dúvida, pensando se gritava para você ter cuidado, ou se isso faria com que se sentisse insegura. Você desceu confiante, sem brecar, e quando tentou fazer isso, o patinete já havia desestabilizado e você caiu.  Para mim foi como uma cena em câmera lenta, porque vi que ele dançava de um lado para o outro, até que você rolou pelo chão. Achei que você tivesse quebrado um braço, ou uma mão. E saí correndo, já culpada, gritando em sua direção.

Graças a Deus você se machucou pouco. O queixo ficou com uma baita ralada, daquelas que tira a pele de verdade. Tanto que demorou um bom tempo para que parasse de sangrar. A sobrancelha também ficou marcada, mas suavemente. E as outras partes do corpo só sofreram o impacto – mas você é forte, muito forte, minha menina!

Mas o que mais me doeu veio depois. Você, com sua carinha triste, me perguntou: “mãe, mas por que você deixou que eu descesse? Porque se você tivesse falado para eu não descer, eu não teria me machucado!”. Ah, filha, como isso partiu meu coração. Sim, eu sei que se eu tivesse te alertado, você, que sempre me ouve, não teria descido, ou teria descido com mais cautela. E provavelmente não teria caído.

Sabe, filha, eu me senti uma péssima mãe nessa hora. No fundo, o verdadeiro motivo de eu ter deixado você tentar, é que eu não quero que tenha medo de fazer isso. Quero que você voe mais alto do que eu voei. Quero você acredite que pode, que consegue – e você só terá essa certeza se enfrentar as situações. Mas uma outra parte de mim queria ter voltado atrás no tempo para segurar aquele patinete, dizendo que já era hora de ir embora para casa.

Eu tentei te responder tudo isso, mas não sei se você entendeu. Eu sei que no fundo, você está chateada comigo. Hoje eu não fui sua super-heroína, aquela que te salva de tudo, que não deixa que qualquer mal te aconteça. E você percebeu que eu sou falível.

Me dói pensar que muitas e muitas vezes eu não conseguirei te salvar. E que eu poderei te alertar de várias pedras, mas não te alertarei de outras. O que aquieta meu coração, no entanto, é saber que você é forte. Você é muito forte, minha menina!




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Comentários (1)

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  1. Flavia disse:

    Relato lindo e emocionante! Chorei

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