Precisamos ensinar nossos filhos a viver com menos

Por 3 Comentários


Hoje eu passei uma parte da minha tarde conversando com uma amiga querida. Ela está vivendo uma fase pessoal difícil, enfrentando uma separação dolorosa, mas está ali – firme, forte, convicta de seu papel de mãe, se esforçando para continuar dando o melhor para os seus filhos. Mas sabe que serão necessários cortes, para viver em uma estrutura familiar diferente, sem muita ajuda (até financeira).

Imagem: 123RF

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Engraçado como, conforme ela ia falando, acabamos nos dando conta, juntas, de que nossa geração foi acostumada a ter muito mais do que a dos nossos pais. Muitos deles, durante a infância, não tiveram sequer uma televisão em casa (que só chegou anos depois, e mesmo assim na versão preto e branco). Tinham o uniforme da escola e mais meia dúzia de peças, que podiam ser facilmente acomodadas em uma pequena parte do armário, que dividiam com os irmãos.

Mas nós já crescemos com mais. Eu não me lembro da vida sem TV, pude escolher algumas roupas que minha mãe comprava, mesmo tendo mais duas irmãs (mais novas, sempre reclamaram que herdavam tudo, e pouco podiam escolher). Em casa, cada uma tinha sua Barbie, e com o que ganhávamos de presente, conseguíamos montar uma cidade inteira para as bonecas brincarem.

E nossos filhos? Alguma dúvida de que eles, desde sempre, tiveram ainda mais do que nós? Olho para a quantidade enorme de brinquedos de Catarina e fico de certa forma espantada. Isso porque doamos muita coisa – quando algo novo chega, um antigo sai. No quarto da pequena as roupas ocupam não só a cômoda, como também um armário de duas portas (embora eu, felizmente, compre pouquíssima coisa, uma vez que a grande maioria das peças foi passada por amigas com filhas mais velhas. Eu poderia comprar tudo novo? Sim, poderia. Mas, para mim, deixar de usar roupinhas tão lindas, em perfeito estado, seria não só falta de inteligência, como também uma falta de respeito com o meio ambiente).

Se essa é uma realidade dessa geração que está nascendo agora, dos nossos pequenos, por que nos preocuparmos em ensiná-los a viver com menos? Posso estar enganada, mas acredito que a vida é cheia de altos e baixos. Muitas vezes nos vemos no meio de furacões – e qualquer semelhança com os tempos difíceis que estamos vivendo, em que vejo muitos amigos perdendo empregos, tendo que viver com metade do que viviam no ano anterior, não é mera coincidência. E nessa hora é necessário focar naquilo que realmente importa: casa, comida, educação, saúde.

Quando situações como essa acontecem, vejo alguns pais sofrendo muito, por não poderem dar aos filhos o que davam antes. Vejo algumas crianças que se sentem infelizes, porque não têm o lançamento da loja que o colega de classe ganhou, nem o brinquedinho do fast food. Quando poderíamos usar nosso tempo ensinando nossos filhos a criarem seus próprios brinquedos, a se divertirem pegando folhas de árvores, a fazerem sua própria comida (quem é que não gosta de cheirinho de bolo que acabou de sair do forno?) – coisas que custam substancialmente menos do que se divertir comprando coisas por aí.

Quando simplificamos, vemos que é muito mais fácil atingir aquele sentimento de felicidade, que tanto almejamos. Nos tornamos mais independentes: do dinheiro, das comparações, do que não conseguimos controlar. Gastamos tanta energia tentando garantir que nossas crianças sejam bem-sucedidas no futuro (tenham um bom emprego, uma casa grande, o carro do ano), que talvez estejamos deixando passar a possibilidade de ensiná-las outras formas de satisfação, de alegria, de prazer. Não é voltar a ser bicho-grilo: é abrir os olhos para novas possibilidades de levar a vida, e criar filhos fortes, para o mundo que precisarão enfrentar.




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Comentários (3)

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  1. Carla Marques disse:

    A minha filha de 22 meses teve muitas coisas emprestada inclusive a roupa quase toda. A irmã que nascerá quando ela tiver 2 anos e 3 meses vai herdar a roupa dela e também os brinquedos (que não são em quantidade exagerada).
    Quando me dizem que ter um filho é muito caro eu concordo. É muito caro sim por causa da creche, dos médicos e das vacinas que não são comparticipadas. Em termos de saúde e educação, faço um esforço por lhe dar o melhor que o nosso orçamente permite. Mas, brinquedos, roupas novas e presentes a toda a hora não tem. Preferimos dar à nossa filha uma irmã e experiências interessantes, passar tempo com ela mesmo que para isso tenhamos menos dinheiro porque trabalhamos menos horas.
    Também não temos canais pagos de televisão raramente vamos ao cinema. Preferimos passear em parques e fazer piqueniques em família. São opções e devemos respeitar todas mas, confesso que me faz muita impressão ver pais a trabalhar de dia e de noite e não terem mais do que presentes caros para oferecer aos filhos.

  2. Juju disse:

    Concordo com vc que “não é voltar a ser bicho-grilo: é abrir os olhos para novas possibilidades de levar a vida, e criar filhos fortes, para o mundo que precisarão enfrentar.”
    Vejo o exemplo dos meus pais e com certeza não quero seguir. Meu pai trabalhou muito para me colocar no melhor colégio (leia-se o mais caro e renomado de minha cidade), ter os melhores passeios, viagens, os melhores presentes, as roupas da marca da moda…… Era tudo o que ele tinha a nos oferecer pois achava que era o melhor, mas a presença e as brincadeiras simples ficaram um pouco esquecidas.

    Desejo trabalhar menos, se preciso, para poder mostrar aos meus filhos que o simples é mais gostoso, que a boneca de pano é mais divertida porque ela mesma pode me ajudar a fazer uma. Que pintar um novo carrinho de madeira é muito mais legal!! Não excluindo meus filhos do mundo, mas mostrando que não precisamos de galinha pintadinha para fazer eles almoçarem, nem de brinquedos da “moda” para que eles fiquem quietos em publico.
    É um esforço que tenho feito, difícil sim, mas muito recompensador!!!

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