Por que um filho precisa ser a prioridade na vida dos pais

Por 11 Comentários


Hoje eu estava conversando com algumas amigas, quando um papo antigo começou: a observação de que atualmente os pais têm cada vez menos disponibilidade para seus filhos. Mesmo que você seja uma mãe ou um pai preocupado, atuante, atento às necessidades do seu pequeno, é só olhar em volta – nossa geração passa a maior parte do dia, dos meses, dos anos correndo atrás de sucesso profissional, pensando que é através dele que, além de outras coisas, conseguiremos dar o bom e o melhor aos nossos pequenos.

Imagem: 123RF

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Não estou dizendo que o trabalho não seja importante, muito pelo contrário – é preciso pagar as contas, colocar comida na mesa, e ter uma função que o torne útil. É bom para si mesmo, porque é fundamental ter orgulho do que se constrói, e para o filho, que te vê como exemplo a ser seguido. O que me pergunto é se não estamos exagerando na dose, terceirizando os cuidados com os filhos, com a desculpa de que tudo é feito em seu benefício. Tenho certeza de que em muitas famílias não há alternativa ao trabalho de sol a sol; mas há tantas outras em que essa atitude é muito mais uma escolha do que uma necessidade.

Quando vejo pais que têm uma babá para cuidar do filho de segunda à sexta-feira, mais uma para os fins de semana, e uma terceira para cobrir as férias de ambas (por que, afinal, como é que eles conseguiriam dar conta de uma criança sem ajuda?), me pergunto até que ponto esse pequenino conhece os valores e crenças de seu pai e sua mãe. Questiono o quanto esse filho se acha importante para os próprios pais, a ponto de delegarem todos os cuidados básicos nos primeiros anos de vida. Claro que contar com alguém para auxiliar com os filhos não é pecado algum – é muito mais a maneira como você escolhe ser ajudada que faz a diferença! No meio da noite, é na sua cabeceira que a babá eletrônica toca, é você quem levanta para saber o que está acontecendo, quem amamenta (ou dá uma mamadeira – o que está em discussão aqui não é se a mãe consegue amamentar no peito ou não, é se ela exerce a função de nutrir o filho)? Ou é a babá quem faz tudo isso, porque você (mãe ou pai, porque ambos são responsáveis pelo filhote) precisa levantar “inteiro” no dia seguinte, exatamente como fazia antes de seu filho nascer?

Vejo famílias em que pai e mãe parecem continuar com vinte anos, apesar do tempo já ter passado (e muito!). Não podem abrir mão da dedicação à carreira, dos passeios noturnos, das viagens sem filhos (mesmo que ele tenha poucos meses de vida). Mas querem a família feliz na fotografia (ou nas redes sociais), o filho educado, bem vestido e carinhoso, sem perceber que existe um vínculo a ser construído diariamente. Você precisa se doar: em atenção, em amor. Você precisa educar, mostrando o que pode e o que não pode. Você precisa mostrar, e não apenas falar, que estará lá sempre que ele precisar.

Delegar essas funções a outra pessoa é abrir mão da coisa mais preciosa que temos em relação aos nossos filhos: a convivência. Porque o tempo passa tão rápido que, em um piscar de olhos, eles já não precisam do peito, do ninar, do colo, da mão apertada na hora de dormir. Haverá tempo de sobra para trabalhar mais, ganhar mais, viajar mais, depois que crescerem um pouco.

Hoje, olhando meu pai e minha mãe, vejo que o bem mais precioso que me deixaram foram os momentos vividos juntos. Os ensinamentos, as risadas, as histórias que um dia eu contarei para Catarina. Agradeço todo o esforço que fizeram para que eu frequentasse uma boa escola, e até alguns presentes que me marcaram, porque os desejava muito. Mas sei que a vontade de estar junto, de almoçar em sua casa no fim de semana, de ver minha pequena abraçando os avós, de ser seu porto seguro quando envelhecerem foi construída lá atrás, quando eles abdicaram de uma vida tranquila para criar suas três filhas.




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Comentários (11)

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  1. Nicole disse:

    Como sempre ela arrasa no que fala…. Belíssimo texto, parabéns

  2. Sirlei disse:

    Nem 8, nem 80. O ideal é dosar, só que essa dose é diferente para cada um.
    Não adianta estar com o filho o tempo todo e não conseguir demonstrar felicidade, ou achar que estar com ele é apenas questão de espaço físico e não precisa interagir com os pequenos. Claro que as crianças querem atenção total e pais que acham que 30 minutos com “qualidade” é o suficiente para estar com o filho. Mas isso é questionável, pelo menos para mim.

  3. Rosilene disse:

    Amei esse texto, como sempre voce arrasando Nívea. Parabéns sou sua fã. Felicidades.

  4. Eu gostaria de ponderar também que, na nossa sociedade, as pessoas ainda colocam na mãe TODA responsabilidade de criação dos filhos. O pai, salvo em alguns casos, continua fazendo papel de coadjuvante, deixando para a mulher a responsabilidade de educar e cuidar da criança. Um filho deve ser prioridade na vida dos pais mesmo, mas na dos dois, e não só da mãe. O que vejo é muita mulher correndo contra o relógio para dar conta do trabalho, do filho, do marido, de si mesma. Esse é um pensamento que também tem que mudar.

  5. Dani disse:

    Parabéns !!! Um assunto polêmico que você abordou graciosamente ! Tb não abro mão dos cuidados da minha grudinho . bjss

  6. Márcia Cristina disse:

    Que texto maravilhoso!

  7. Esmar Souza disse:

    Lindo texto, parabéns. Me fez refletir em um momento que estou precisando fazer escolhas.

  8. paula disse:

    Lendo o texto parece tudo tão fácil!!!
    Deixar a carreira de lado para cuidar do filho na época que ele mais precisa é lindo na teoria…
    Na prática é bem diferente! Poucas empresas contratam uma pessoa que ficou alguns anos fora do mercado de trabalho. Sem falar que a maior parte das mães simplesmente não podem se dar ao luxo de não contribuir com as despesas da casa.

    • Angela disse:

      Oi Paula!
      Creio que seja uma questão de priorizar.
      Eu mesma abri mão da minha carreira profissional para cuidar do meu filho durante (pelo menos) um ano. Nao temo a volta ao mercado.
      Claro que em alguns casos, não é possível.
      Mas vale a pena para este vinculo que é formado, e que leva-se para o resto da vida.
      Essas “regras” impostas pela sociedade não traz felicidade. Eu busquei a minha e não me arrependo.

  9. Tuti disse:

    Muito bom o texto! Lembrando que muitas vezes a função da babá e desempenhada pelos avós, e todo mundo acha que é normal. Que tal um texto sobre o tema?

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