Tarja Branca: o filme que vai mudar a forma como você enxerga a brincadeira do seu filho

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Hoje eu tive um pequena briga com Catarina – e como 90% das nossas discussões, essa também estava relacionada a horários. Sabe quando você precisa falar cinco, dez vezes a mesma coisa? “Está na hora de colocar o uniforme, de almoçar, larga o que você está fazendo, senão vai se atrasar!”. Às vezes me sinto aquele tipo de mãe chata, que fica o dia inteiro ditando regras; enquanto isso, Catarina só mostra um interesse: o de brincar.

Sabem que eu tenho um certo conflito com esse assunto? Porque ao mesmo tempo que acho importante que ela faça um esporte, e tenha contato com uma língua estrangeira desde cedo, me pergunto se ela está tendo tempo suficiente para o que eu considero a atividade mais importante da infância: a brincadeira! Por um lado, você quer proporcionar ao filho os elementos do melhor desenvolvimento possível; por outro, sabe que ele terá muito tempo para aprender o que pode ser ensinado em aulas formais, e muito pouco para o brincar despretensioso, repleto de prazer e ao mesmo tempo de conhecimento (quem disse que criança não aprende brincando? Aprende sim, e muito!).

Por isso hoje eu queria deixar a dica de um documentário incrível, dirigido por Cacau Rhoden e produzido pela Maria Farinha Filmes e pelo Instituto Alana, e que fala exatamente sobre um dos melhores remédios para a vida toda: a brincadeira. “Quando você perde a capacidade de brincar, você perde uma conexão com a sua essência”. Em uma referência a adultos e crianças, a frase é do ator Domingos Montagner, e faz parte da abertura de Tarja Branca – a revolução que faltava (por favor, assistam, vale cada segundo dedicado a ele! E está inteirinho no YouTube!).

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Além de Montagner, o trabalho contém entrevistas com artistas, pedagogos e pesquisadores, que contam suas memórias de criança e, a partir delas, a trama se desenrola em uma reflexão sobre a infância que estamos dando aos nossos filhos (e sobre como essa fase se reflete na vida adulta). E a “tarja branca” do título nada mais é que o psicolúdico, ou seja, o brincar.

Apesar de parecer um pouco óbvio que toda criança precisa (e deve) brincar, o assunto é mais sério do que se imagina: o consumo de medicamentos psicotrópicos subiu, em apenas nove anos, de 71 mil para 2 milhões no Brasil, segundo dados do Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos. Desse total, também fazem parte as crianças, que cada vez mais frequentemente têm sido diagnosticadas com transtornos como déficit de atenção (TDAH) e hiperatividade (e, consequentemente, têm consumido essas substâncias). Para se ter uma ideia, nos Estados Unidos em 2010 já havia 10,4 milhões de crianças diagnosticadas com TDAH – um aumento de 66% em dez anos, segundo levantamento da Faculdade de Medicina Feiberg.

Não à toa que o psicanalista Ricardo Goldenberg afirma no documentário que “vivemos a medicalização da vida humana”. Segundo ele, em uma das últimas edições de uma revista especializada em psicanálise, foram publicados cerca de 45 mil artigos sobre depressão, contra não mais de 400 sobre alegria. “A alegria não está na moda”, diz. E, junto com ela, também na contracorrente, está o brincar. Mais uma entrevistada do documentário, a pedagoga Ana Lucia Villela, completa que a brincadeira é um assunto banalizado e que muitos veem essa discussão como um atraso – quando, na verdade, ela pode ser “a revolução que faltava”, como diz o subtítulo do filme.

 

Por que brincar?

O ponto principal de Tarja Branca é abordar o brincar como forma de expressão e discorrer sobre os seus benefícios. Para o documentarista norte-americano David Reeks, mais um dos entrevistados, o ato de brincar significa liberdade: de tempo, espaço e criação. Ana Lucia completa que é na brincadeira que a criança encontra solução para os problemas sozinha, na qual aprende a colaborar e ainda a desenvolver o olhar criativo. E o pesquisador Alberto Ikeda ressalta que é também brincando que fazemos os primeiros contatos sociais – por meio de linguagens universais, como o riso.

Imagem: 123RF

Imagem: 123RF

E não são só as brincadeiras propriamente ditas: o documentário destaca outras expressões do lúdico, como ler. Dois dos entrevistados, o jornalista José Simão (talvez um dos seres mais “brincantes” da imprensa hoje) e o escritor Marcelino Freire, contam que estão nos livros suas principais memórias de infância, pois era a forma que eles usavam para se divertir, já que Simão sofria com asma e Freire com sopro no coração.

Contudo, apesar de todos os benefícios, as brincadeiras muitas vezes são deixadas de lado por limites em excesso que estabelecemos, falta de tempo ou pela própria criação de uma rotina para os pequenos cercada de aulas, atividades e horários em que o que mais falta, na verdade, é tempo para ser criança.

 

Adulto também pode (e precisa) brincar

Além de chamar a atenção para a infância, o documentário ressalta que a forma de expressão livre e espontânea do brincar “nos persegue” a vida toda. Afinal, quem é que, no meio do expediente de trabalho, não dá aquela paradinha para bater um papo com o colega? Ou então abre uma página engraçada na internet para dar umas risadas? Sim – essas também são manifestações do lúdico.

E ainda outras formas dos adultos brincarem são expressas no filme, como as festas populares e as danças, em que o individualismo é deixado de lado e a pessoa entra no universo brincante, onde ela passa a fazer parte de algo. Talvez aí esteja um dos momentos mais emocionantes do documentário – integrantes de um grupo de frevo são entrevistados e cada um conta a sua profissão e ressalta que, além dela, eles dançam. Não tem jeito: a vontade de brincar está sempre presente – e abandoná-la seria negar uma manifestação natural.

 

Olhe pra trás

O documentário encerra com alguns entrevistados lembrando de suas fotos preferidas da infância. E deixa uma conclusão: será que se você, criança, olhasse para o adulto em que se transformou, sentiria orgulho? Segundo eles, recuperar o olhar menino vai mostrar se tudo está, de fato, valendo a pena.

Diante de cenas como essa, das lembranças das fotografias e das brincadeiras, é quase impossível não criar empatia e não se lembrar ao longo do filme das próprias experiências durante as primeiras fases da vida. E isso, além de ser um exercício delicioso, abre as portas para uma reflexão mais profunda sobre o que fomos, somos e como estamos sendo para os nossos filhos.

O filme completo está AQUI (boa diversão e reflexão!).




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