A geração da ritalina

Por 16 Comentários


No fim de semana passado estávamos em um conhecido clube de São Paulo, que meu pai frequenta desde a infância. Um lugar muito gostoso, repleto de crianças brincando com suas famílias. Foi quando uma menininha de cinco anos se aproximou de nós e começou a conversar. Por coincidência, seu nome também era Catarina, e em muitos aspectos se parecia com minha filha. Ela era ativa, falante, cheia de ideias mirabolantes; logo atrás vinha o pai, que parou para falar alguns minutos comigo.

Quando elogiei a vivacidade da filha, ele começou imediatamente a se desculpar. Disse que a filha era ativa até demais e sofria bastante com ansiedade e hiperatividade. “Mas está tudo sob controle, já começamos o acompanhamento médico e em breve ela começará a ser medicada”. Confesso que imediatamente um alarme soou em minha cabeça.

Claro que eu não estou aqui para julgar o caso daquela menina, nem um outro qualquer. Simplesmente porque não sou médica, psicóloga ou tenho formação que me permita fazer um correto diagnóstico. Mas a situação chamou minha atenção – talvez porque aquela menininha parecesse perfeitamente normal aos meus olhos. Ou porque nos últimos tempos, em quase todos os ambientes que Catarina frequenta, exista uma história parecida. Afinal, por que na geração de nossos filhos tantas crianças são diagnosticadas com hiperatividade? Por que inúmeras necessitariam de medicamentos para moldar seu comportamento aos padrões estabelecidos pela sociedade?

Por favor, se seu filho tem o diagnóstico, está sendo medicado e seu coração de mãe está confiante de que é o melhor a ser feito, simplesmente saiba que esse post não foi feito para você. A última coisa que desejo é colocar um peso adicional sobre sua decisão (porque eu também sei que em alguns casos, diagnosticados acertadamente, medicamentos como a ritalina são extremamente benéficos para a criança com TDAH – transtorno do déficit de atenção e hiperatividade – e modificam positivamente a dinâmica de toda a família).

Por outro lado, se você não está 100% segura, eu gostaria de deixar um alerta. Porque o MEU coração de mãe me diz que não é possível que sejam tantas as crianças da geração de nossos filhos que de fato precisem ser medicadas. Para mim, enfrentamos um grande dilema de educação – por um lado, abrimos muito mais espaço para nossas crianças se expressarem do que tivemos em nossa infância; por outro, precisamos entender que essa liberdade exige dos pais atenção redobrada no estabelecimento de limites, para que o filho não se perca no meio do caminho.

E já que comecei a falar, vou um pouco mais além: acredito que, para muitas escolas, seja mais fácil recomendar a um pai que leve seu filho ao psiquiatra do que chamá-lo incontáveis vezes para avaliar de que outra forma essa criança pode ser ajudada. Acredito que, ao invés de agressivas ou hiperativas, algumas crianças sofram de um déficit de sono muito grande (para mim é muito claro – quando minha filha passa alguns dias dormindo mal, ela se transforma em outra criança), porque lhes falta um adulto com pulso firme para dizer que já é hora de ir para a cama, mesmo que ela não queira. E, por fim, acredito que exista gente ganhando muito dinheiro para fazer pais bem intencionados acreditarem que precisam medicar seu filho para o resto da vida.

Pode ser apenas minha impressão, mas… Pode ser que valha a pena refletirmos sobre o assunto.




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Comentários (16)

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  1. Lilian disse:

    Amo seu blog , compartilho vários posts com amigos,
    Parabéns, um excelente 2015.
    Bjks lili e Mari.

  2. Concordo! Meu filho com sono, não quer dormir, mas fica como vc disse, outra criança de tão agitado! Só mesmo levando dormir na marra.

  3. Minha filha de 2 anos e meio não para um segundo, mas aos meus olhos acho ela super normal, uma criança feliz , carinhosa e cheia de saúde só tenho a agradecer a Deus. Quando ela passa dos limites, tanto eu como o pai sabermos ser firmes e mostrar a ela o certo e o errado. Beijos. Feliz 2015.

  4. Gislaine Nunes Veiga disse:

    Olá Nívea,
    Primeiramente parabéns, adoro seu blog, textos exemplares… E concordo com tudo o que você escreveu… Vivemos em uma era de rótulos… Antigamente nossas avós chamavam uma criança mais agitada de arteira ou esperta, hoje todo mundo quer afirmar é hiperativo… Sou mãe de um pequeno de três anos, e sei de cor seu comportamento e suas agitações… Qualquer pequena mudança na rotina ele já sente… Agora se me fosse apresentado por escola ou seja lá quem, um diagnóstico desses, eu iria buscar outras opiniões de outros profissionais antes de acatá-la, e claro junto ao meu marido discutirmos se os nossos corações compartilham da mesma opinião… não somos a favor de calmantes… remédios para sono… entre outros que até médicos receitam nos primeiros meses para o bebê dormir e os pais descansarem…
    Desde bebês estimulamos nossos filhos… corrigindo… hoje é desde o ventre… As crianças são muito mais abertas ao diálogo, não tem o medo de falar, questionar, discutir, perguntar… porém tanto estímulo tem suas consequências… e muitas delas é a ansiedade: de falar, de ser visto, de brincar em casa ou outro espaço que é diferente do que a criança está inserida… do sono atrasado e do limite que você tão bem citou… Sou daquelas mães chatas, que criança tem horário… com raras exceções meu filho extrapola a hora de dormir… porque sei que no outro dia ele vai estar com aquela ressaquinha de sono… chorando e querendo colo o tempo todo…
    Eu quis comentar seu post porque tenho visto, ouvido muita opinião alheia sobre crianças… conselhos de como tornar seu filho uma vaquinha de presépio… ou as famosas críticas: Nossa ele ainda não está na escola… como se com 3 anos fosse para ele estar cursando medicina… Nossa ainda usa fraldas? Ele corre muito, é muito agitado? já levou no pediatra? No psicólogo? Olha menina ele deve ser hiperativo ou se a criança ta quetinha brincando é o contrario… Nossa tão quetinho, já olhou se não tem anemia… Tenho vontade de gritar com gente assim… sair da classe integralmente – Criança tem seu próprio tempo… e tentar apressar as coisas só atrapalha…. Para algumas pessoas não parecem estar educando e criando um ser humano, mas sim um projeto de SER SUPERIOR da raça… desculpe o desabafo também… igual a você as vezes nossa sirene do coração toca e não sentimos a vontade com certas situações…

    • Nívea Salgado disse:

      Oi, Gislaine,

      Concordo 100% com você sobre a chatice dos rótulos. A impressão que temos é que nossos filhos precisam seguir à risca tudo o que se espera deles, não é verdade? Do contrário, sempre há alguém para dizer que eles têm algum problema sério! De fato, às vezes é só esperar o tempo que eles necessitam para se desenvolver.

      Beijos,

      Nívea

  5. erica disse:

    Ola Nivea adorei esse blog bem informativo. Entao eu moro em Londres e sou mae do Luca de 14 meses. Um dia meu pai comentou: -Nossa acho que seu menino eh hiperativo! Eu ri. Minha sogra um dia soltou: -Nossa ele eh sempre assim? Nenhum comentario foi malicioso, mas acho que o Luca impressiona pela paixao e energia que tem por viver. Eu nao considero meu filho hiperativo, so acho que ele tem uma curiosidade e alegria enorme de viver, claro eu mae fico super cansada, mas eu tambem tenho uma histamina e determinacao que poucos tem. Entao filho de peixe, peixinho eh rsrs. Voltando ao tema, meu filho nao eh medicado., acho que ele eh normal. Super respeito maes que tem filhos que precisam ser medicados, eu nao conheco a vida de todos tampouco sou medica; medicacao tem seu lugar e utilidade. Porem faco algumas observacoes. Quando estive no Brasil percebi muitas pessoas (estou generalizando) que colocam seus filhos pequenos na cama meia noite, 22hrs etc (hein???) esses sao bebes que precisam dormir umas 12 horas noturnas. Meu filho ia para cama as 6 depois (quando bem pequeno) com o tempo 6:30 e agora com 14 meses vai entre 7 e 7:30 e dorme ate as 7 da manha (claro ha dias que acorda mais cedo ou acorda a noite). Se seu filho esta hiper pode ser que esteja super cansado e nao saiba o que fazer com o excess de cansaco, parece energetico mais esta eh cansado. Outra coisa a Franca tem a taxa mais baixa de prescricao de Ritalina (meu marido eh frances), porque? Primeiro porque a alimentacao la eh bem saudavel sem produtos com corantes, conservantes etc. Coca-cola etc tem cafeina, imagina o efeito no coitado do bebe…Depois as rotinas sao bem rigidas, tem horario para brincar e hora para dormir. Televisao a noite eh um veneno para o sono de uma crianca porque eh estimulante. Entao eu sugiro que antes de levar sua crianca para o medico para tomar Ritalina, mude a rotina our crie uma, coloque seu bebe na cama mais cedo, de cominhas naturais, arroz, feijao, suco de fruta natural, reitire balas, doces e biscoitos. Desligue a televisao a noite. Estabeleca uma rotina de sono. Nas horas que a crianca esteja acordada leve ao parque, playground, praia, piscina etc para que a crianca se solte, corra, descubra o mundo. Pela minha experiencia uma rotina leva 5 semanas no minimo para funcionar entao nao desista e nao mude a rotina mais que 30 minutos. Eu e o Luca sempre saimos para o parque, playgroups, cafes para bebes etc, mas respeito seu ritmo e hora de dormir e no berco em casa. No mais confiei em seu instinto e consulte uma segunda ou Terceira opiniao se achar que o medico nao diagnosticou seu filho corretamente.

    • Nívea Salgado disse:

      Oi, Erica,

      Você levantou outro ponto bem interessante: o da alimentação. Tenho certeza de que viver uma vida mais saudável, comendo os alimentos certos, só pode trazer benefícios aos pequenos!

      Grande beijo,

      Nívea

  6. Leiliane disse:

    Olá Nívea, concordo plenamente com tudo que escreveu, pois se meu filho tivesse nascido nos dias de hoje, com certeza teria sido diagnosticado com esta tal síndrome, mas posso garantir que cresceu um menino super normal, pentelho e aprontava de tudo que possam imaginar, deixaria qualquer mãe e psicólogo de hoje com os cabelos em pé, e doidinhos para encherem o coitado de ritalina. Mas ao contrário do que estes “ENTENDIDOS” , poderiam dizer, meu filho se tornou um menino maravilhoso, alegre, muito feliz, divertido, e muito querido por todos, apesar de sua “HIPERATIVIDADE” infantil. Não que não existam crianças com algum problema , mas com certeza têm muitos professores com nenhuma vocação para a profissão, e totalmente despreparados para essa nova geração. Parabéns menina por tudo que têm feito. Bjs…

    • Nívea Salgado disse:

      Oi, Leiliane,

      Muito bom saber que você já teve a experiência de ver seu filho crescer e perceber que ele se transformou em uma pessoa feliz, divertida e alegre!

      Grande beijo e obrigada pelo carinho,

      Nívea

  7. Juliana disse:

    Vc está de parabéns pelo blog!!!coml é bom pode ouvir história de pessoa como vc inteligente e criativa estou amando feliz 2015.

  8. Ana Paula Queiroz disse:

    perfeita sua colocação. percebo o mesmo que você e contesto tal postura exacerbada.

  9. Já me pararam no meio da rua para perguntar se o meu Samuel que é um anjo, tranquilo demais, era hiperativo, só porque ele é falante, brinca, corre, dança, canta e conversa com todo mundo!! Eu disse que não! Ele é só uma criança feliz!! Gente louca!!!

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