Quando você se coloca em último lugar

Por 26 Comentários


Esses dias estive pensando sobre os primeiros meses de Catarina. Certamente, foi a fase mais difícil da minha vida – com um bebê para cuidar, sem entender o motivo dos choros, com a avalanche de hormônios característica do pós-parto. Quanto mais o tempo passa, mais acredito que a grande dificuldade inicial que tive como mãe estava ligada ao choque que senti com a chegada da maternidade. Porque quando um filho nasce, você deixa de ser cuidada, para cuidar. E isso muda absolutamente tudo.

Martin Gommel via Compfight cc

Martin Gommel / Creative Commons

Como foi sofrida, para mim, essa transformação. Até então, eu tinha liberdade para ir e vir, trabalhava, fazia pós-graduação, interagia no mundo dos adultos 100% do tempo. Eu era a esposinha linda, inteligente, que viajava com o marido aos fins de semana sem precisar se programar muito tempo antes. Eu ia a bons restaurantes, comia uma deliciosa comida quentinha e ocasionalmente fazia umas comprinhas – um sapato, uma bolsa, um vestido novo. E, olha, isso tudo era muito bom.

Aí Catarina nasceu. E não dava mais para fazer tudo aquilo que eu fazia. Sair de casa? Para estar de volta em no máximo uma hora? Comida quente? Nem a feita no meu fogão, porque se a pequena chorasse na primeira garfada, eu deixava tudo para ampará-la e só terminava quando o prato tinha ficado gelado (cansada e com fome, você come daquele jeito mesmo – nem coragem para esquentar no microondas rola).

Mas depois que o choque inicial passa, a verdade é que você se acostuma a essa nova vida. Pensar no filho em primeiro lugar vira automático, e você passa a organizar sua vida colocando-se em segundo plano. Segundo não, último. Porque antes vem o filho, o marido (que, coitado, precisa da sua atenção para não se sentir o abajur da casa após a chegada do bebê), a mãe, as irmãs, as amigas… E lá no fim da fila, aquela última cabecinha que quase não dá para enxergar, é você.

Não sei se é por auto-proteção (já que a mudança é inevitável, seu cérebro tenta tirar alguma vantagem dela), mas pode ser que você até se sinta orgulhosa por colocar todo mundo na sua frente. Você pensa assim: “puxa, eu sou mesmo muito bacana, olha só quanta coisa eu sou capaz de fazer!”. É praticamente como se você fosse a mulher maravilha – poderosa, generosa, sempre preocupada em ajudar.

Aí o tempo passa mais um pouco. Seus dias se dividem entre brincar com o filho, levá-lo para a escola, para o ballet, o inglês… Fazer supermercado, preparar as refeições, dar comida, banho, colocar o filhote para dormir, levá-lo ao médico… Você é capaz de desmarcar tudo quando o filho fica doente – até aquela consulta, com o seu médico, que você levou meses para tomar coragem de marcar. Fazendo um balanço de como tenho cuidado da minha própria saúde desde que Catarina nasceu, percebi que nunca mais voltei ao dentista, não retornei ao médico com os exames que ele pediu no ano passado e só estou retornando nesse ano porque percebi que ou faço isso, ou  estarei mal nos próximos meses.

Isso tudo é para dizer que é muito fácil se esquecer de cuidar de si mesma. Você pode até achar que não precisa, que é forte, que dá conta do recado. Mas uma hora a bomba explode. Sabe aquela velha história de colocar a máscara primeiro em você, se o avião despressurizar? Não é à toa, não – porque você acha que vai dar conta do recado, mas não dá. Repare no número de amigas que, do nada, ficam doentes, a ponto de serem internadas aos seus 35, 40 anos. Não são poucas…

Ser mãe é ter que equilibrar um monte de pratos ao mesmo tempo. E de vez em quando um se desestabiliza – aí você dá uma corridinha, coloca mais atenção ali, para que eles voltem a girar em harmonia. Mas se o equilibrista cai, não sobra um prato no ar, já pensou nisso? Por aqui estou começando a colocar na agenda um horário para cuidar de mim. E tenho certeza de que passarei a ser uma mãe, uma esposa, uma filha e uma amiga muito melhor depois disso.




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Comentários (26)

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  1. Carolina Pires disse:

    Amei ler isso!

  2. Realmente a gente esquece que existimos e exigimos o máximo de nós mesmas, talvez para não se sentir culpada se as coisas não se saírem bem.

  3. Erika Sadats disse:

    Ser mãe é aprender a ser altruísta na marra, principalmente nos primeiros meses, mas não confunda com sacrifício! Adorei o post Nívea 100% verdade.

  4. Kelly disse:

    Olá Nívea!

    Descobri seu blog na última semana e estou amando!

    Cuidar um pouco de nós é um exercício diário…tenho tentado isso desde que minha filha completou 1 ano (hoje está com 1 ano e 6 meses)…confesso que nem sempre é fácil, que muitas vezes o sono e o cansaço superam tudo…mas vale a pena.

    Quero ser um bom exemplo para minha filha. Quero que ela se cuide, se ame e se valorize…e acredito que sou o espelho dela para isso!

    Beijo, parabéns pelo blog!

    • Nívea Salgado disse:

      Oi, Kelly, tudo bem?

      Muito obrigada pelo carinho!

      Você tem toda a razão: também por sermos modelos para nossos filhos, precisamos nos cuidar e nos valorizar, para que eles aprendam a fazer o mesmo!

      Grande beijo,

      Nívea

  5. Putz… desse jeito mesmo, serve de consolo saber que é assim não só comigo. Me ver como prioridade não é fácil

  6. Que alívio rs
    Bom saber que não estamos sozinhas nessa 🙂

  7. Fabiana Nakamura Avona disse:

    Abri o face na esperança de achar algo que acalmasse meu coração e eis que me deparo com seu post! Era tudo o que precisava "ouvir" nesse momento!! Obrigada!!

  8. Thalita Palitot disse:

    Eu so me estressei com algumas pessias achando que tinha o direito de dizer como fazer as coisas para minha filha.
    eu tentava me controlar pra nao explodir… foi a unica coisa quetornou meu pos parto dificil.

  9. Pura verdade! Estou no meu segundo filho (9 meses). Meu primeiro está com 3 anos. Sinto-me exatamente igual ao comentário da amiga, sem tirar nem pôr. Busco soluções para tudo e muitas vezes não há encontro, ou por falta de conhecimento do assunto, experiência de vida, vivência e falta de informação. Não me dou por vencida, se não vivi, nem tenho referÊncia do passado. procura na internet respostas e pessoas que passem pelo mesmo problema e tenta trocar ideias e compartilhar situações que tragam soluções. AMEI SEU TEXTO.

  10. Cid@ disse:

    Excelente post, infelizmente isso acontece com a grande maioria, a gente meio que acaba perdendo nossa identidade e muitas vezes já me perguntei “cadê eu?”, somente depois do meu filho completar 1 ano e meio que acordei que lembrei que eu também preciso de cuidados, tenho me sentido muito melhor depois que consegui cuidar de mim, nem roupas eu estava comprando tudo tudo era para ele, até minha mãe e minhas irmãs pegam no meu pé dizendo que fiquei muito relaxada…enfim agradeço por elas serem sinceras e me abrir os olhos.

    bjo gde

  11. simone disse:

    me identifiquei demais!! ja marquei e faltei inumeras consultas. meus oculos quebraram e to ha uns 3 meses sem usar pois preciso ir ao oculista. Ainda me burlo muito. acho q viciei nesse comportamento. e tb sair de casa p ir ao medicoé uma logistica horrivel p mim pois dependo q alguem va cmg.

  12. Laís Martins disse:

    só sabe o quer é ser mãe quem se torna uma viu… é muito dificil, mais ver o rostinho dele de tranquilidade sendo bem cuidado é compensador 🙂

  13. Laís Martins disse:

    só sabe o quer é ser mãe quem se torna uma viu… é muito dificil, mais ver o rostinho dele de tranquilidade sendo bem cuidado é compensador 🙂

  14. Exatamente. Tenho passado por tudo isso depois que a Lara, amor da minha vida, nasceu, a 4 meses. Mas enfim, vivendo e aprendendo

  15. Bom saber que somos iguais e melhor ainda que podemos mudar!

  16. O bom e saber que varias mães se sentem assim. Pois em um primeiro momento pensei que fosse ma administração de tempo minha. Um BJ a todas as guerreiras.

  17. Muito obrigada! Eu estava nesse momento, as 5 da manhã, refletindo sobre tudo isso quando ví esse post e realmente me identifiquei… Bom saber que não estou sozinha

  18. Obrigada por colocar em palavras tudo o que eu sentia mas não achava como . Sou nesse texto. Sem tirar nem por. Até sobre a minha dentista querida q deixei de visitar com a mesma freqüência rs. Amei o seu texto. Parabéns!

  19. Karina Nina disse:

    Parece que foi eu que escrever esse post, mães todas iguais ne, e ainda as vezes não são valorizadas pelos filhos esposos.:)

  20. Texto maravilhoso poderia ter como título retrato de uma mãe , bem assim…

  21. Pior é qdo marido esquece da gente!!

  22. Paola Bonfort disse:

    Dany Medeiros tu tem que ler

  23. Elis Gonzalez disse:

    #estamosjunto

  24. Letícia Monteiro disse:

    Que bom é saber que não estou sozinha nessa. Bem vinda ao clube!

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