O tal do papo sobre a morte

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Tem conversas que são difíceis de se ter com um filho, e uma delas certamente é sobre a morte. Mesmo que você encare-a com naturalidade (e no meu caso, apenas como uma passagem para uma outra vida), é inegável que ela traz consigo a ideia da separação. Eu, aos trinta e quatro anos, ainda não me sinto 100% confortável em pensar no distanciamento que ela nos impõe. Sei que meus pais um dia falecerão, mas por enquanto prefiro não pensar sobre o assunto, postergando-o para o momento em que será inevitável.

O que fazer então quando uma criança de dois, quase três anos, pergunta para você com todas as letras. “Mãe, você vai morrer?”. E você, que sempre prezou pela verdade nas conversas com seu filho, sente que deve responder: “Sim, filha, um dia eu vou”. Juro que não estava preparada para falar sobre isso tão cedo. Pensei que aos cinco, seis anos, Catarina me faria essa pergunta pela primeira vez. Mas não, foi bem mais rápido do que eu supunha.

O mais difícil é que o papo não parou por aí. “E eu, mãe, um dia vou morrer também?”. E ao ver o sofrimento em seus olhinhos, senti vontade de responder que não, que ela não precisaria se preocupar, que ficaríamos juntas para sempre! Mas não, por mais que me doesse ver sua apreensão, respondi que sim, que ela também morreria (assim como todos os seres vivos que ela conhecia). Nesse momento as lágrimas começaram a rolar pelo seu rostinho e ela me abraçou. Claro que então contei a ela o que eu entendia por morte: uma espécie de viagem, para um lugar muito melhor do que o que vivemos. Foi o suficiente para que parasse seu choro, mas não para que esquecesse o assunto.

O mais engraçado é que tempos atrás ela mataria uma formiga sem pensar duas vezes. Simplesmente porque o bicho poderia picá-la (então melhor acabar logo com ele, certo?). Mas agora ela para, olha, e até conversa com a formiga. Diz que é sua amiga. E se for uma muito grande, daquelas que lhe dão medo, ela pede para que eu não mate, apenas a afaste.

Mas eu também saí diferente desse episódio. Se antes eu pensava em como seria perder meus pais, hoje é inevitável imaginar o que minha filha sentiria na minha ausência. Como é difícil perceber-se finito nesse contexto! Como é dolorido perceber que você não tem controle algum sobre sua ida, nem sobre o sofrimento que o outro sentirá. Por isso o melhor a fazer seja amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Já dizia Legião Urbana.




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Comentários (4)

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  1. Melissa Cortez disse:

    Amei esse post, Nívea. Encaro a morte com naturalidade também, mas me imaginei tendo essa conversa com meu filho (que tem somente 7 meses) e imaginei a carinha da Catarina e me deu até um nó na garganta. Mas achei super válidas suas respostas para ela. Muito bom! =)

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